O TEXTO A SEGUIR CONTÉM ALGUNS SPOILERS LEVES!!!

Pode ser uma visão equivocada minha, mas creio que ultimamente o horror hollywoodiano tem funcionado melhor sob propostas e ideias mais simples – vide o quanto gostei das recentes prequels A Primeira Profecia (Stevenson, 2024) e Alien: Romulus (Álvarez, 2024) – do que ao visar maiores ambições temáticas. Não que exceções muito positivas não existam: Coralie Fargeat não nos deixou esquecer esse ano com A Substância. Mas, desde a popularização do que é chamado pejorativamente de “terror elevado”, há uma crença de que temas pesados ou controversos já se bastam para conduzir um “terror psicológico”.

E eu não esperava ter que falar mal de um exemplar dessa tendência vindo da dupla Scott Beck e Bryan Woods. Responsáveis pelo ótimo slasher A Casa do Terror (2019), que tem como seu maior mérito a simplicidade de sua condução narrativa, sua mais nova empreitada chama atenção por trazer um galã de comédias românticas, Hugh Grant, como uma figura misteriosa e ameaçadora diante de duas jovens mórmons que acabam tendo a infelicidade de bater em sua porta. E posso dizer que a condução inicial de Woods e Beck é muito acertada, pacientemente acompanhando as meninas (vividas por Sophie Thatcher e Chloe East) até a casa do tal Sr. Reed.

Ao serem convidadas para entrar e conversar com o aparentemente educado cavalheiro (seu jeito britânico o torna mais convidativo), Beck e Woods preenchem todo um diálogo teológico de 30 minutos com ângulos incertos e incômodos, além de uma iluminação bastante soturna. Parece que o foco ali não é a discussão, mas sim a incerteza ascendente das missionárias em relação ao seu suspeito anfitrião e os pequenos detalhes que tornam sua presença ainda mais inquietante. Mais uma vez, a dupla da direção acerta na abordagem simples, porém absolutamente eficiente ao potencializar o suspense e o temor com elementos básicos na decupagem.

Eis que avançamos um pouco mais no jogo psicológico e teológico de Reed e descobrimos que… Opa, o foco do longa realmente é o debate teológico entre a razão cética de um vilão inescrupuloso e a crença cega e treinada de duas jovens religiosas. A própria dinâmica desigual de gênero acaba sendo negligenciada para focar, a partir daí, em inúmeros monólogos argumentativos – tanto de um lado quanto de outro – que mais parecem saídos de um simpósio encenado para uma das inúmeras sequências de Deus Não Está Morto (Cronk, 2014). Claro que Woods e Beck fazem uso de mais signos do horror, mas é nesse momento que a encenação abandona a iluminação soturna para cair em uma das mais irritantes manias do cinema de terror industrial hollywoodiano: a escuridão sem contraste. (Até quando, minha gente?!)

Todo o segundo ato do filme, que seria possivelmente o mais interessante no aspecto visual, é coberto por uma camada naturalista escura que torna quase incompreensível tudo o que ocorre em cena. E nem o joguinho de percepções desse momento torna justificada a escolha visual dos diretores em toda essa sequência, possivelmente a mais importante se levar em consideração apenas a trama. Achou que as palestrinhas ensaiadas de seus personagens tinham terminado? Pois se enganou, esse provavelmente é o fator mais consistente de toda a obra.

E o pior de tudo é que o ponto que parece estar sendo defendido pelos cineastas não é, em minha percepção, o que seu filme defende narrativamente em sua semiótica. Afinal, eles se esforçam para que todos os argumentos de Reed pareçam os mais sensatos possíveis (embora nunca menos pedantes e artificiais, mesmo com a ótima fisicalidade de Grant) e as respostas das mulheres apenas soam como dogmas transmitidos e nunca, de fato, compreendidos por estas. Entretanto, sua abordagem do vilão e a reta final inspiradora e, de certa forma, cafona tornam a obra em algo próximo de uma propaganda religiosa pobre.

Existe, sim, a defesa de que a reta final de Herege é mais dúbia, justamente por questionar a religião como ferramenta de controle de massas (ponto central de Reed). Porém, ao botar um homem completamente reprovável para ser o porta-voz dessa ideia aqui no longa, Woods e Beck acabam nos induzindo a não seguir esse caminho. Então, a borboleta colorida no fim, assim como o cenário verde e ensolarado, acaba soando mais como um elemento estético inspirador do que enganador em sua essência.

Junte a essa aparente contradição uma narrativa baseada em incansáveis monólogos pedantes e artificiais, grandes sequências mergulhadas em um breu puro e uma encenação extremamente preguiçosa depois dos primeiros 30 minutos, e temos aqui mais um filme ambicioso tematicamente, mas que parece negar o terror justamente por confiar que sua temática controversa já será mais que suficiente para conduzir o filme. E o mais irônico é perceber como, este ano, uma prequel de uma franquia tão consolidada como A Profecia conseguiu desenvolver bem mais sobre o tema do controle religioso. Como eu disse, parece que as pequenas ambições são as mais recompensadas atualmente.