Hamlet é possivelmente a obra mais importante da literatura inglesa e conta a história de um príncipe dinamarquês que precisa vingar a morte do pai, após o golpe de tomada de poder arquitetado pelo tio. Mas Hamnet, o filme e o livro homônimo de Maggie O’Farrell (que também assina o roteiro, junto da diretora Chloe Zhao), vai contar a vida íntima da família de William Shakespeare (Paul Mescal), sob a perspectiva de sua esposa, Agnes (Jessie Buckley), e da relação do casal com seus filhos, a mais velha, Suzanna (Bodhi Rae Breathnach) e especialmente os gêmeos Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (Jacobi Jupe).

O longa, a meu ver, tem duas metades distintas: a primeira em que Agnes e Will se apaixonam e começam a construir uma vida a dois e a segunda em que ele viaja para Londres – onde desenvolve sua profissão, mas por consequência deixa sua família para trás. No início, então, há uma conexão entre dois deslocados, ela por ser vista como bruxa, preferir o convívio dos animais e o ambiente da floresta e ele por escolher os livros ao invés do trabalho manual. Mas em seguida o que é ressaltado é o drama da mãe cansada, enquanto faz o possível para cuidar dos filhos (sem um pai presente), presa em casa e tendo que lidar com os sogros.

A ligação entre as duas histórias, Hamlet e Hamnet, para além do título, é baseada em especulações reais sobre as implicações da vida pessoal do autor em suas obras. Entretanto, a narrativa do filme explora muito mais temas como maternidade e religião e não está interessada em apresentar pensamentos e sentimentos do dramaturgo. Assim, quando nos é revelado o porquê dessa junção de ideias o resultado não tem tanto impacto emocional.

É curioso pois o filme vai culminar numa catarse que é trabalhada apenas no último terço de uma narrativa que parece alongada de início e corrida em seguida, sem propósito aparente. Ela estabelece várias características dos personagens e conflitos que nada importam para o desfecho: como a ligação de Agnes com a floresta, que parece tão forte e lúdica a princípio, tanto que ela tenta passar isso para os filhos, mas não há maiores consequências para quando ela é forçada a ficar em um ambiente mais caseiro. Ou então o distanciamento do casal, que aparentemente vai ser um conflito a ser discutido e não passa de uma cobrança feita por Agnes, saída do nada em um momento de desespero. Há uma desconjuntura entre as causas e consequências, onde umas existem sem as outras, e com isso o impacto emocional é perdido pelo caminho.

Eu li um crítico que escreveu, em inglês, algo como “o filme quer fazer com que a gente chore, mas não nos permite sentir” e, para mim, este foi um resumo perfeito sobre essa desconexão da narrativa. As atuações parecem artificiais, especialmente na segunda metade, também por essa falta de sentimento, restando mais gritos e frases eloquentes – a exceção é a do ótimo ator mirim Jacobi Jupe. Isso envolto por uma fotografia que é eficiente em ressaltar a melancolia, com o clima nublado, meio molhado, e uma paleta de cores que destaca bem o vestido vermelho de Agnes, o coração da família, porém também se perde quando o foco fica mais em closes dos rostos dos atores e menos em planos mais abertos. Assim fica só o vazio, sem nada mesmo, não é um vazio desolador.

Eu imagino que algumas pessoas que não gostaram de Nomadland (Zhao, 2020), filme premiado da diretora que está entre meus favoritos da década, tenham tido um sentimento parecido com o meu sobre Hamnet. Falta uma conexão emocional para dar sentido a paisagens bonitas e à dor dos personagens. No primeiro eu consegui embarcar na jornada de superação de um luto, de sentir o isolamento e o vazio da existência, e ao mesmo tempo continuar existindo em um mundo que não te pertence. Penso que em Hamnet houve a tentativa de recuperar um sentimento parecido com esse de Nomadland, mas talvez por, além disso, também ser uma fanfic biográfica de Shakespeare, a sensação de angústia e desolação tenha se transformado em lágrimas de crocodilo.