Essa é mais uma parte da tendência atual de “continuação desnecessária feita mais de quinze anos depois (no caso aqui, 24 anos) de um longa aclamado por público e crítica”. Tentando surfar em uma nostalgia, esses filmes costumam apelar para o máximo de referências aos originais, até na forma da história, ao mesmo tempo que justificam a passagem do tempo e estabelecem personagens mais jovens que possam seguir o legado.
Gladiador 2 é exatamente isso: o primeiro filme é constantemente referenciado, a narrativa tem a mesma estrutura e há um novo protagonista com motivação semelhante. O tempo parece que não passou para Ridley Scott, o qual constrói uma obra que parece presa aos anos 2000, com os temas de heroísmo, busca por vingança e por uma ideia (estadunidense) vazia de liberdade. Além disso, ele utiliza alguns tropos ultrapassados como ressaltar a fraqueza dos imperadores colocando eles como afeminados ou pouco hábeis para luta, como também fez com o Commodus no primeiro filme.
Hanno (Paul Mescal) é um jovem comandante que, juntamente com sua companheira, compõem o exército da última cidade livre da Numídia. Porém, em uma eletrizante cena de batalha, os romanos, comandados pelo general Acacius (Pedro Pascal), conquistam a cidade. Dessa forma, Hanno é capturado e vendido para Macrinus (Denzel Washington) como gladiador. Logo na primeira sequência, é notável a escolha do diretor em abdicar um pouco do drama para focar na ação. Talvez por ter acesso a mais recursos digitais do que há 24 anos, Ridley Scott abusa do uso de animais, com tubarões, rinocerontes e até babuínos (alguns beirando o vale da estranheza), criando um senso de espetáculo grandioso em todos os combates.
Por causa do ótimo trabalho de Paul Mescal, a motivação do rapaz – pura raiva – é sempre enfatizada nos movimentos e em seu rosto, o que compensa o desenvolvimento inicial muito corrido do personagem. Assim, por mais que a narrativa siga os passos do longa original, e de tantos outros épicos que compartilham da mesma fórmula, o envolvimento imediato com o personagem e com o ódio dele criam a tensão necessária para que as duas horas e meia passem como num piscar de olhos. Contribui para isso também a excelente jornada de Macrinus (Denzel impecável), personagem que é o real destaque e responsável por mover as engrenagens da trama. Os dois são a mente e o coração do filme.
Por outro lado, o ponto fraco do longa é quando ele tenta criar uma narrativa política, com questões de sucessão, traição e golpe de Estado, em que as coisas se resolvem do nada e as consequências não são mostradas ou não importam. O primeiro filme também sofria dessa questão, mas, diferente deste, a saga pessoal de Maximus foi melhor desenvolvida ao ponto de ofuscar a politicagem fraca. Já a sequência dissolve mais a história entre outros personagens e por isso o pouco conteúdo dessa trama fica mais ressaltado.
Quando a questão é precisão histórica, Ridley Scott deixa a desejar novamente, mas não é por isso que Gladiador (2000) foi tão aclamado em seu lançamento e da mesma forma a continuação também não será. Esta parte 2 precisa muito da nostalgia do primeiro para se sustentar, mas as carismáticas atuações, a trilha sonora arrebatadora e cenas de ação monumentais fazem com que a memória de Maximus seja honrada e com que a resposta para a pergunta dele ainda seja: “sim, estamos entretidos”.