Até mais ou menos o começo da década passada, a ideia de que viveríamos em um mundo dominado pela Inteligência Artificial (IA) era coisa de ficção científica. Com o avanço da tecnologia, porém, esse realidade começou a ficar cada vez menos distante. No cinema, há muito tempo esse tipo de futuro é mostrado como uma realidade simultaneamente fascinante e perigosa, algo que em Futuro Futuro materializa por meio da crítica e da adoção do subgênero da distopia.

A ideia é mostrar um Brasil afetado pelo avanço da IA junto a uma estranha síndrome neurológica que está atingindo parte da população, focando em um protagonista desmemoriado de sua identidade e de sua própria vivência, que tenta entender sua função e seu lugar naquele mundo e o que está acontecendo com ele.

O uso da IA, no geral, é, de longe, o aspecto mais interessante do filme. Os flashes de cenas geradas por IA são um uso inteligente do recurso e não sabotam a proposta da obra. Hoje em dia, cresce um debate ético sobre como as IAs vão afetar a produção e o consumo de arte e de entretenimento, além de diminuir o trabalho humano nas obras no futuro, a depender da forma pela qual vai ser usada. Contudo, Futuro Futuro entende que, como o próprio nome diz, ela é artificial, pois não há nada de humano ou artístico naquilo. Essa já é uma ideia que diz muito sobre como essa artificialidade vai afetando nosso cotidiano e nos vendendo mentiras cada vez mais descaradas sobre o que achamos que queremos e somos. O longa se baseia tematicamente nesse tipo de pensamento, que vai guiando a narrativa.

Entretanto, se o conceito da produção é um aspecto positivo, o mesmo não pode ser dito de seu desenvolvimento. A obra traz consigo certas temáticas relevantes para além dos efeitos da IA no mundo, abordando também aspectos ligados à desigualdade social e às crises de identidade. Todavia, a maioria delas não é trabalhada de maneira convincente nem consegue entregar um peso dramático a esses pontos. A narrativa segue de forma perdida e vazia, como se o filme não soubesse por qual caminho seguir, repleto de cenas que são um vácuo tedioso e bastante prejudicadas pela falta de coesão. As interações entre os protagonistas não chamam muita atenção e, apesar do bom elenco, os personagens não possuem carisma capaz de fazer o espectador comprar a situação vivida pela população das duas partes da cidade e pelo protagonista, de alguém perdido num mundo estranho e afetado por novas tecnologias.

A construção do universo também soa um tanto preguiçosa. Ao focar na região mais pobre da cidade e em momentos em que a câmera percorre as ruas e as árvores, a cenografia parece buscar uma valorização da natureza remanescente desses espaços diante de uma nova realidade que vai consumir esses ambientes mais cedo ou mais tarde. Porém, esse alerta não transmite a urgência que tenta expor e, mesmo que o filme não seja obrigado a contextualizar tudo de forma explícita para o espectador, a maneira de o desenvolver torna tudo negativamente confuso. Até pode haver a intenção de construir uma narrativa fragmentada, mas, no fim das contas, ela apenas soa desconjuntada e arrastada.

Como um todo, é um compilado de ideias bem honestas e significativas para a nossa realidade. No entanto, tais ideias ficam prejudicadas pelo método, que distancia a narrativa das próprias propostas. Ao acreditar que o conceito e a mensagem do filme valem por si sós, a abordagem acaba remetendo a algo que aspira ao tipo de conteúdo de Black Mirror, cujos episódios, em alguns casos, também apresentam um desenvolvimento aquém de suas propostas ambiciosas.