George Miller vem se reinventando na franquia Mad Max desde o segundo filme da trilogia original, tanto em aspectos narrativos quanto na estética daquele grande mundo distópico que ganha mais e mais características exageradas ao longo dos três primeiros longas. Depois de dar continuidade a franquia a partir do estabelecimento de um novo universo estético com Mad Max: Estrada da Fúria, Miller agora se encontra no desenvolvimento de uma nova abordagem em seu novo longa Furiosa, se diferenciando em vários detalhes das características autorais presentes na sua obra-prima de 2015, uma história de origem que transfere todo o olhar para seu protagonista, em meio ao universo caótico do diretor.
Diferentemente de Estrada da Fúria, onde Max se torna um personagem espectador da pequena odisseia da personagem de Charlize Theron, ele sendo o obtentor do olhar durante todo o filme, tendo sua perspectiva colocada como o principal ponto narrativo, Furiosa: Uma Saga Mad Max se apresenta como uma grande história de origem que não pretende se afastar de sua protagonista em nenhum momento.
Como já dito antes, a idealização da saga Mad Max sofre uma metamorfose cada filme lançado, com o futuro distópico punk e escrachado servindo como a gênese criativa dessa franquia pós-apocalíptica nas três primeiras obras de Miller, onde as caracterizações dos personagens (principalmente dos vilões) se unem a aquela estética decadente, os cabelos longos e coloridos, as jaquetas de couro espetadas, os trajes deixando certos personagens semi-nus, esses visuais se tornando um ícone da cultura pop, possuindo sua origem em Mad Max. No longa de 2015, o diretor optou por outro seguimento em relação ao visual de sua história, um mundo completamente devastado livre de qualquer ordem estabelecida, com esse visual punk deixado um pouco de lado, dando lugar a estética tipicamente apocalíptica que não abandona suas características únicas, como podemos ver na idealização de seus vilões, ou na construção dos veículos doidos que se tornam um pilares centrais da trama.
Mesmo que as duas abordagens autorias do diretor sofram com uma mudança consciente, todos eles entregam sua proposta de forma genial, uma ação frenética e caótica que não se esconde por trás de jogos de câmera confusos, se utiliza bastante de suas cores para gerar uma hiperestilização do conflito que o mantém extremamente empolgante, Furiosa não se mantém longe dos detalhes que compõem o sucesso da franquia, mas como já esperado, se utiliza de outra abordagem.
Longe dessa continuidade desenfreada, o longa funciona como a jornada de ascendência da Imperatriz Furiosa, a viagem forçada e violenta de uma criança obrigada a enfrentar os desafios do deserto, não apenas as grande batalhas na estrada ou as dificuldades para se manter vivo fora delas, mas também as mudanças de caráter geradas de forma visceral por esse ambiente em uma pequeno ser que, apesar de se mostrar extremamente imponente e corajosa, é apenas uma criança buscando sua casa. As grandes sequências de ação não estão ausentes, muito pelo contrário, se em Estrada da Fúria os efeitos práticos reinavam na grande parte do filme, muito por ele se manter nesse estado exaltado quase por inteiro, nesse a câmera de Miller se torna extremamente versátil, captando todo o frenesi por completo, sempre mantendo os ótimos takes que potencializam todo os movimentos, não os perdendo por nem um segundo. Os visuais também se apresentam como um ponto fortíssimo, esse exagero característico de Mad Max está muito mais presente do que em seu predecessor, Dementus (Chris Hemsworth) é um vilão extremamente estilizado, usa cores e trajes considerados exuberantes e age quase de uma maneira teatral e cômica, o que entra em conflito com Furiosa (Anya Taylor-Joy) que possui poucas linhas de fala, um pequeno detalhe que concede um peso muito maior a sua presença nos momentos de fúria, um grande trabalho de atuação por parte da dupla.
Furiosa: Uma Saga Mad Max parece entender sua posição em sua franquia, ao mesmo tempo que não abre mão do que faz a saga ser o que ela é, busca um intimismo maior para aquela personagem maravilhosa que parece ser vazia de esperança perante o fim do mundo. Mas no fim, sabemos o que acontece, a esperança vive uma última vez.