O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS LEVES!!!

Minha relação com Frozen (Buck e Lee, 2013) é engraçada, porque foi o filme que recuperou meu interesse em animações depois de uma fase da adolescência em que eu parecia renegar esse formato por um pretenso amadurecimento e a crença equivocada de que esse tipo de filme era feito “apenas para crianças”. Depois de muito resistir, especialmente com todo o hype que transformou o primeiro capítulo em um ícone da Disney quase tão grande quanto A Pequena Sereia (Clements e Musker, 1989) e O Rei Leão (Allers e Minkoff, 1994), encontrei-me apaixonado pelos habitantes de Arendelle e seus arredores, e pelas músicas que impulsionaram seus dramas e desejos.

Enfim, assisti à tão criticada sequência de 2019, comandada pela mesma dupla: Chris Buck e Jennifer Lee. Lançada em um período criativamente fraco da Walt Disney Animation Studios, que ainda se apoiava no sucesso estrondoso de Moana (Clements e Musker, 2016), acredito que Frozen II foi vítima de uma espécie de cansaço do público mais velho – incluindo críticos – pelo merchandising massificado que estampava com os rostos de Anna, Elsa e cia. todo e qualquer produto infantil durante aquela década que chegava ao fim.

Não me entendam mal! Não busco, com isso, desvalorizar as opiniões daqueles que não gostaram do longa – e, de fato, o contexto no qual assistimos a determinado filme é parte fundamental dessa experiência com a obra. Porém, em meio a tantos comentários sobre o quão previsível é sua trama ou o quão desnecessária era uma sequência para essa história, senti uma carência de reflexões sobre o aspecto que mais brilha aqui (o que também valia para seu antecessor): a forma como a linguagem cinematográfica praticamente ilimitada do formato animado dá, a um filme de apenas 1 hora e 40 minutos, a escala de um épico de fantasia.

Ao acompanhar Elsa perseguindo o que aparenta ser um chamado espiritual de ajuda, ela e seus amigos de Arendelle embarcam em uma jornada pela Floresta Encantada que, após um conflito entre os soldados do reino e os povos indígenas décadas antes, encontrava-se bloqueada pelos espíritos da natureza. Assim como no longa anterior, vemos como as histórias de Frozen se preocupam muito mais em desenvolver os conflitos intimistas de seus personagens do que em encenar grandes aventuras. E mesmo com essas propostas mais “verticais” e contemplativas, é de se impressionar como os diretores encenam certos trechos dessa jornada, de forma que a autodescoberta de Elsa (existencialista por natureza) se torne um estopim para desbloquear um lado místico (ou até mitológico) que as irmãs ainda não tinham conhecido.

Se o primeiro filme era sobre a onda gélida que atormentava Arendelle, despindo o reino de toda sua vivacidade, o segundo reflete sobre como Arendelle é responsável por uma visão conservadora em relação à magia, o que quase causa o fim de um povo e de uma cultura. Com o amadurecimento de Elsa e Anna, o mundo em que elas habitam parece se tornar mais cinzento e a linha entre o bem e o mal parece mais tênue. Dito isso, toda a reflexão do boneco de neve Olaf sobre “tudo fazer sentido depois da maturidade” – que serve, na superfície, para um eficiente alívio cômico e algumas músicas divertidas – acaba tomando outros rumos, ecológicos e até mesmo anti-coloniais. Por sinal, não pude evitar de lembrar todo o tempo de Avatar: O Caminho da Água (Cameron, 2022).

Há um elemento de dívida histórica e miscigenação dos povos que parece passar despercebido ou ser simplesmente ignorado sobre esse filme. E tal elemento cria nas figuras de Elsa e Anna esses dois frutos dessa mistura que, representando uma o inverno e outra o verão, são instrumentos justamente de equilíbrio entre Arendelle e Northuldra, entre o real e o fantástico. Anna surge, então, mais lerdinha e deslumbrada como sempre foi, uma espécie de personificação da paixão humana imperfeita, enquanto Elsa enfrenta um conflito divino e surge como uma figura messiânica ao final, cavalgando de branco por entre as grandes ondas para salvar uma cidade da inundação. Será que J.R.R. Tolkien ou C.S. Lewis se lembrariam de algo se vissem essa cena?!

A imperfeição humana e a personalidade trivial de Anna se equilibram com o existencialismo grandiloquente de Elsa e com a idealização de sua figura como salvação, com poderes místicos e uma influência sobre os espíritos da natureza. E tudo o que eu estou escrevendo aqui pode parecer uma análise puramente conteudista ou superficialmente simbólica do “enredo” de Frozen II. E tudo bem, não julgo se você, leitor, tiver essa impressão. Afinal, eu de fato posso estar deixando minha empolgação pelo filme tomar conta do meu raciocínio.

Porém, nada disso chegaria a minha mente se não fosse a escala adotada pela direção ao aproveitar cada detalhe desse universo, como cada elemento natural se comporta, como cada expressão de Elsa surge mais destacada, como cada música parece ter como base questões existenciais ou emocionais muito fortes. Além, é claro, de algumas serem encenadas como peças operísticas grandiosas que, como uma amiga da Revista me apontou, por vezes soam como músicas gospel. O exemplo máximo talvez seja Show Yourself, que acompanha Elsa em cavernas escuras tentando investigar o passado de seus ancestrais, descobrindo assim o determinismo de sua existência mágica.

Porém, não vejo como algo negativo e, sim, como algo que enriquece ainda mais essa abordagem de épico existencialista que o longa alcança. Por mais que aqui e acolá, Frozen II ainda caia em alguns vícios inerentes de sequências de estúdio, que sempre são movidas pelo desejo por lucro (como a piadinha na cena pós-créditos), eu simplesmente não consigo dar tanto destaque para essas imperfeições se existe algo tão grandioso e encantador apresentado em tão pouco tempo de projeção. Além de Arendelle, existe todo um mundo a ser explorado, assim como além do dinheiro da Disney, humanos criativos ainda podem superar de forma sensível as limitações quadradas do estúdio do qual fazem parte.

Dito isso… Frozen II me fez concluir que, assim como os questionamentos de Olaf, certas animações fazem muito mais sentido com uma certa maturidade.