Seria ingênuo da minha parte dizer que assisto a todos os filmes ignorando qualquer relação prévia que tenho com eles. Claro, eu tento ter esse distanciamento, mas ignorar que certas tendências e concepções pré-definidas existem é só um idealismo bobo. Digo isso porque, desde criança, eu amo animais, e qualquer obra que trate desse mundinho é um deleite para mim — especialmente quando elas não são frias e sem vida como o remake de 2019 de O Rei Leão e produções semelhantes. Por isso, a chance de eu desgostar de Flow já não era tão alta. Contudo, não esperava que ia me deparar com um dos filmes mais surpreendentemente mágicos e fascinantes de 2024.

A obra acompanha um gatinho que, após ver seu habitat tomado por uma grande inundação, encontra salvação em um barco, onde buscará sobreviver junto a animais de diversas espécies, como um cachorro ingênuo, um lêmure possessivo, uma capivara preguiçosa e uma ave de rapina que coloca ordem em tudo. O primeiro aspecto que torna Flow único já se encontra nesse conceito, isso porque nenhum dos animais é antropomorfizado, e toda a comunicação entre eles se dá somente pelos sons emitidos pelos bichos. Porém, isso nunca torna o filme inexpressivo, visto que a direção de arte dá tantos contornos emotivos ao visual dos personagens que nem precisamos de qualquer fala para entender o que está acontecendo e tampouco se envolver emocionalmente.

E até por essa simplicidade autoimposta de não possuir falas, grande parte da obra acaba se resumindo ao modo como a direção de arte retrata cada personagem e a dinâmica entre eles e com o mundo em seu entorno. Felizmente, tal aspecto é absurdamente primoroso e encanta mais a cada cena, tanto quando o foco se dá no rosto dos animais quanto em planos mais abertos, momentos em que vamos da felicidade ao choro e do deslumbre à fofura de um modo leve e orgânico. Sem nem perceber, nos encontramos preocupados com um gato que sequer tem nome ou falas e com seus amigos, cujas personalidades são aprofundadas de diversos modos, como uma cena em que o protagonista começa a brincar com a cauda balançando do lêmure e isso desencadeia alguns divertidos minutos com o grupo e suas diferenças.

Mas a obra não se resume a essa ideia estática de explorar animais em um contexto pós-apocalíptico, nem se contenta em apenas animar momentos fofos de bichos. Há aqui uma narrativa que, mesmo sendo simples, tem nuances interessantes e nos leva a uma montanha-russa de acontecimentos, não se furtando a trama de explorar um lado mais melancólico. Afinal, ainda que não saibamos as razões (até porque seria difícil os animais falarem sobre isso), a história se passa em um mundo relativamente caótico, em que a sobrevivência é algo difícil, e que claramente tem um passado potencialmente sombrio — vide as estátuas encontradas ao longo da jornada. Nesse contexto, não há uma tentativa do filme de tornar tudo lúdico como faria uma produção da Disney; pelo contrário, explora-se uma gama de atos e consequências, independentemente se eles causam felicidade ou sofrimento.

Flow já me encantou por sua proposta e por suas lindas imagens, dentre as quais destaco as deslumbrantes cenas em que o gatinho entra na água, e me manteve preso por uma narrativa e por personagens fascinantes. Nunca pensei que passar algum tempo da minha vida acompanhando bichinhos emitindo somente miados, latidos, cantos e outros barulhos pudesse ser algo tão emocionante e delicioso ao mesmo tempo. É um filme poderosíssimo, que valoriza a imaginação e a maravilha com que vemos o cinema, algo tão raro nos dias de hoje.