Michael Mann comanda uma cinebiografia que foge do convencional enjoativo (e altamente repetitivo nos últimos anos) ao criar uma abordagem que foca nas individualidades do protagonista como motor para todos os acontecimentos da encenação do filme conciliando essa vibe mais séria dos trágicos eventos da vida de Ferrari com uma fisicalidade, visual e trejeitos bem caricatos e exagerados principalmente por parte de Enzo (Adam Driver) e sua esposa Laura (Penélope Cruz). Dois dos melhores personagens de 2023, chega a ser triste ver o esnobe do filme mesmo nas categorias de atuação dessa temporada de premiações, que provavelmente ocorre por essa artificialidade escrachada (que funciona bem demais, mesmo em outros filmes do grande Michael Mann, como Miami Vice) em diversos momentos da obra. Além de também ter um apelo visual muito satisfatório durante as corridas e especialmente no acidente, a cena mais estilizada do filme e (provavelmente por isso) talvez a mais impactante. Um filme estimulante do começo ao fim.

Enzo Ferrari  carrega um fardo, o fardo de seu nome. Durante o filme inteiro existe uma discussão sobre a linhagem e histórico do nome. Soa como se o protagonista atraísse um ciclo de morte e desavenças do começo ao fim pois além de ter perdido o filho com a esposa, perdeu seu irmão anos antes na Primeira Guerra Mundial. Michael Mann constrói esse personagem que vive melodramas do começo ao fim: além dos problemas de relacionamento com a esposa, Laura Ferrari e do filho falecido, ele tem uma amante, Lina Lardi (Shailene Woodley) da qual tem outro progenitor em segredo.

Quando Enzo conhece o piloto que vai correr pela Ferrari durante o filme, Alfonso de Portago, ele está de carro numa faixa, o sinal abre e, instantaneamente como se estivesse em uma corrida, ele acelera e mal dá atenção ao rapaz. Essa ignorada que o protagonista faz corrobora particularmente em uma ideia de que, mesmo com diversos problemas em quase todas as esferas da vida, tudo que Ferrari quer é ganhar a corrida, custe o que custar. A cena anterior a essa, de Ferrari pilotando seu carro com uma montagem muito dinâmica das trocas de marcha e do carro acelerando cada vez mais ajuda a consolidar a velocidade como um aspecto que se insere de maneira bem agressiva na mente do protagonista, que realmente só pensa nisso o dia inteiro.

É um filme que remete a Oppenheimer (Nolan, 2023), obviamente por serem duas biografias mas principalmente por conta dessa individualização total do olhar e da unidade estilística como um todo. Tudo, do começo ao fim, só acontece por e para entendermos, vermos e sentirmos o que o protagonista entende, vê e sente.

Esse fascínio pelas corridas conciliado com essa abordagem de hipertrofia da individualidade de Enzo Ferrari, um personagem que se divide entre o canastrão e o melodramático, visualmente soa como um motor de uma masculinidade tóxica que arrasta todos à sua volta para o buraco em que ele se encontra, ou mesmo para as pedras no caminho da pista que seus peões (leia-se pilotos) podem encontrar.

O diretor optou por gravar em pistas e carros reais, portanto a câmera fica tremendo em boa parte dos planos de POV dos carros, o que causa uma sensação de velocidade muito expressiva somada a um uso de som quase ensurdecedor, motores, freios e gritos. Um exercício de frontalidade genial. Além disso, localiza muito bem os carros utilizando planos abertos lindíssimos e concilia isso com planos fechados no rosto dos personagens. Michael Mann sempre soube muito bem como tirar sentimento dos rostos em seus filmes, aqui não é diferente e a maneira como o diretor decupa toda a última corrida e o acidente já seria motivo suficiente para ir assistir a esse filme nos cinemas.