Faces da Morte é um filme lançado em 1978, dirigido e roteirizado por John Alan Schwartz (creditado sob vários pseudônimos) que conta a história do médico Francis B. Gröss (Michael Carr) que, após uma autópsia e diante da sua dessensibilização decorrente dos seus anos na profissão médica, decide compilar e comentar diversas filmagens de mortes reais, para entender as diversas “faces da morte” — as quais incluem um culto canibal, um tiroteio policial, violência animal, gravações da Segunda Guerra Mundial, operações cirúrgicas e outros. O longa se apresentava, e foi vendido, como um documentário; contudo, posteriormente, veio à tona a informação de que quase nenhum dos vídeos era real, e que o protagonista era apenas um personagem; além de que os poucos segmentos reais eram aqueles menos chocantes (com exceção dos registros históricos). Com base nas entrevistas do diretor, que veio a falecer em 2019, são tidas como reais as cenas de cirurgia, aquelas que envolvem cadáveres (como as autópsia e a queda de avião), as gravações do holocausto, o abate sem sofrimento de animais e algumas filmagens de mortes reais vistas de longe. Por outro lado, trechos que envolvem violência humana e animal mais intensa, como as conhecidas cenas do macaco e da cadeira elétrica, foram encenadas, assim como o culto canibal, cujo líder era interpretado pelo próprio Schwartz. Este texto, porém, não é sobre esse filme.
Na verdade, contextualizar o longa de 1978 serve para falar sobre as sequências. Isso porque, curiosamente, Faces da Morte gerou uma franquia de cinco filmes, lançados entre 1981 e 1991, todos dirigidos por John Alan Schwartz; posteriormente, duas obras não oficiais nos anos 1990 foram feitas por fãs com base nos “melhores momentos” dos anteriores e destinadas a países nos quais aqueles foram banidos; e, por fim, Faces of Death: Fact or Fiction? veio ao público em 1999 e é focado na produção das principais cenas da franquia. As sequências seguem o padrão do primeiro, com a mistura de segmentos reais e ficcionais — com progressivamente menos cenas reais — e geraram uma diversidade de fãs, conjuntamente com uma legião de traumatizados (como o infame caso de um professor de matemática que achou de bom tom mostrar o filme em sala de aula) e uma série de polêmicas, como um adolescente que culpou a obra por um assassinato em 1986. Entretanto, este texto também não é sobre as sequências.
Nesta crítica, na realidade, quero contar uma história. Uma história de um mundo em que um pseudodocumentário sobre a tênue linha entre vida e morte gera um impacto tão duradouro, a ponto de gerar uma diversidade de sequências, e ser relevante o suficiente para fazer surgir uma nova versão quase cinquenta anos depois, em 2026. A partir da forte tendência a remakes que temos hoje, seria uma ideia muito lucrativa fazer uma versão do original atualizada e com novas polêmicas, algo que, acompanhado de um bom marketing, poderia repetir ao menos uma parte do impacto. Contudo, o diretor Daniel Goldhaber tinha outras pretensões em mente, o que nos leva a um novo capítulo da nossa história: um que fala sobre quando esse mundo, que permitiu e normalizou ver o sofrimento alheio por prazer, começou a notar o quanto isso soa absurdo quando falado em voz alta.

Assim, Faces da Morte surgiu em 2026, dirigido pelo supracitado Daniel Goldhaber. Nele, Margot Romero (Barbie Ferreira) trabalha como moderadora para uma plataforma fictícia (mas claramente inspirada no TikTok) chamada Kino, tendo como função retirar ou manter conteúdos denunciados pelos usuários. Todavia, quando ela entra em contato com uma série de vídeos de mortes encenadas de maneira hiperrealista, começa a acreditar se tratar de um serial killer e, quando desacreditada pelo seu superior e pela polícia, começa a investigar o caso por conta própria. Portanto, não se trata de um remake, e sim de uma reimaginação cujas conexões com o original vão ficando mais claras com o passar da duração.
Essa nova versão expõe uma relação íntima entre o contexto social de 1978 e de 2026, quando ambas as versões foram lançadas, que está no âmbito da difusão da informação. A primeira demonstração pública de uma televisão ocorreu em 1926, enquanto a popularização dos televisores em cores se deu nos anos 1960. Nesse momento, o público ganhava uma fonte de informação poderosa e onipresente. Para obter notícias, não era mais necessário sentar e ler o jornal; para ver filmes, não precisava mais se deslocar a um cinema; e assim por diante. Isso, somado a novas formas de entretenimento, como as novelas e as séries, colocaram a televisão como parte essencial do lar, um aparelho sempre ligado que transmite informações 24 horas por dia, 7 dias por semana, fazendo o ser humano deixar de ser um ator ativo, que comprava jornais e ia a cinemas, para ser um componente passivo, que existia e recebia uma enxurrada nunca antes vista de informações. Paralelamente, novas tecnologias permitiam algo diferente; com a popularização comercial das fitas de vídeo para uso doméstico, especialmente com o VHS em 1976, um novo paradigma surgiu: agora, o público podia não só ter a informação televisiva dentro de casa, como transformá-la em sua propriedade, tornando-a fonte primária de novas informações. Evidentemente, essa descentralização, que torna o ser humano passivo na aquisição de informações e ativo na produção de conteúdo, gerou um caos previsível, mas inevitável.
Por um lado, a invenção da fita de vídeo permitiu uma evolução única na expressão artística, como a difusão do cinema independente, que saía de salas clandestinas em lugares duvidosos para serem vendidos e, mais importante, armazenados. Por outro, a nova tecnologia, sob o mesmo pretexto de fugir da censura e de divulgar filmes “proibidos” alimentou de maneira inédita os fetiches mórbidos de uma série de sádicos e de inocentes curiosos, cuja vontade de procurar tais fitas só aumentava pelo fato de terem sido proibidas (o conhecido Efeito Streisand); dando origem aos snuff movies.
O conceito de snuff movie surgiu nos anos 1970 como uma lenda urbana de que cineastas estariam praticando homicídios a fim de filmá-los e comercializar as fitas posteriormente. Tal conceito se popularizou com o lançamento de Snuff, em 1976, dirigido por Michael Findlay e Horacio Fredriksson, um filme ficcional cujo marketing foi baseado em vendê-lo como um snuff movie. Após isso, várias produções tentaram lucrar com essa lenda, tal qual a franquia japonesa Guinea Pig, iniciada em 1985; Holocausto Canibal, de 1980; e o próprio Faces da Morte de 1978. Todos esses seguem o padrão de misturar filmagens reais com cenas orquestradas, geralmente as mais chocantes sendo do segundo tipo.
Não há evidências de que uma fita de vídeo real de snuff movie tenha sido produzida e comercializada durante a era analógica, tratando-se de mera lenda urbana. No entanto, o advento da internet deu novos contornos à questão. Em 2025, a Revista Vice afirmou ter encontrado o primeiro filme snuff real, chamado pela mídia de The Vietnamese Butcher (O Açogueiro Vietnamita, em tradução livre), após viralizar em sites dedicados a gore e no Telegram no mesmo ano. Esse, por vezes, é considerado o primeiro filme snuff em si — ainda que haja controvérsias decorrentes de alguns casos anteriores, os quais nem sempre foram tão bem documentados e se encontram envoltos em mitos, circunstância que dificulta seu posicionamento na história desse “gênero” —, por ser a primeira vez em que foi inequivocamente documentada e confirmada a existência de uma produção cinematográfica em que um homicídio real foi cometido com a intenção de distribuição comercial. Todavia, gravações de atrocidades contra pessoas na internet são bem mais antigas do que isso.
No Brasil, o primeiro contato de muitos com gore na internet foi o conhecido caso dos corpos dos membros da banda Mamonas Assassinas. Depois de serem divulgadas no já extinto, anti-ético e sensacionalista jornal Notícias Populares, a foto dos cadáveres foi nacionalmente divulgada pelo site Assustador, um famoso ambiente para informações de teor macabro — que iam desde relatos e fotos sobrenaturais até imagens explícitas de famosos falecidos, chegando ao ponto de, inclusive, divulgar fotos de necropsias de pessoas anônimas no Instituto Médico Legal. O site surgiu em 1999 e chegou ao fim na segunda metade dos anos 2000, sendo o primeiro grande shock site — um site que contém conteúdo ofensivo ou perturbador, visando o choque — do país, conhecido principalmente pelo caso dos Mamonas Assassinas. Esse caso, tão presente na memória dos brasileiros, fazia parte de um contexto muito maior.
Apesar de, como mencionei antes, não ter havido uma documentação de filme snuff propriamente dito até 2025, cenas de violência gráfica — que não estão na categoria snuff pelo fato de as agressões não terem sido realizadas para fins comerciais — circulam pela internet desde que esta surgiu. Entre os famosos vídeos de atiradores em massa, como os de Columbine; livestreams de tiroteios; gravações de homicídios por parte de cartéis mexicanos e grupos jihadistas; o caso dos “Maníacos de Dnepropetrovsk”; e os vídeos de Luka Magnotta, que inspiraram o documentário Don’t F**k With Cats em 2019; há uma variedade de mídias de mortes que circulam todos os dias. Nem precisa ir para a temida dark web para isso, visto que há uma variedade no Discord, no Telegram e até mesmo no WhatsApp. A internet amplificou um fenômeno bastante curioso: assassinos cometem crimes em busca de atenção, e há uma legião de curiosos dispostos a dar essa atenção a eles por uma diversidade de razões, mesmo que não concordem com seus atos em si — ou você, leitor, que talvez esteja me julgando por dizer que há uma diversidade de razões além de sadismo para interagir com tais conteúdos, nunca viu os corpos dos Mamonas Assassinas, as fotos de Jeffrey Dahmer, as filmagens de Columbine, ou viu o documentário da Netflix que mencionei? Ou, ainda, as fotos do caso Epstein, tão viralizadas recentemente? Ninguém está limpo na era digital, mas há pessoas mais sujas do que outras. E é nessa relação entre sádico e curioso que entra a ideia de um filme como Faces da Morte, de 2026.

O longa de 2026 se situa em um contexto extremamente determinado, uma era marcada por aplicativos de vídeos curtos, vontade generalizada de se tornar influencer, questionamentos sobre a veracidade de absolutamente tudo e dessensibilização. Já se passaram quase três décadas desde a criação dos primeiros shock sites — lembrando que se trata de um filme estadunidense, onde o acesso a esses sites e à internet de forma geral se deu mais cedo que no Brasil — e os jovens estão mais “vacinados” contra esses conteúdos do que nos anos 1990. Faces da Morte capta esse zeitgeist de várias maneiras; primeiramente, ao discutir como, a partir da falha da proibição das fitas, a internet se construiu como um ambiente totalmente oposto, em que as plataformas incentivam atos cruéis e o Poder Público se submete a esse lobby, incentivando um lado mórbido da economia da atenção; em segundo lugar, ao trazer a versão de 1978 como um tópico do enredo, conectando ambos os filmes de maneira tanto diegética quanto não-diegética e tecendo um comentário sobre como, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais, reciclando a velha vontade de ver gravações de sofrimento alheio 50 anos depois.
O termo “economia da atenção” foi cunhado pelo economista Herbert A. Simon em 1971, que entendia o foco cognitivo humano como um recurso escasso que vem sendo tratado como uma mercadoria valiosa. As redes sociais representam o ápice disso ao transportar uma ferramenta de sequestro da atenção às mãos do público, tornando, assim, onipresente a indústria do entretenimento; a qual, de forma inédita, se encontra atualmente descentralizada nas mãos de pessoas desvinculadas de grandes corporações, mas que buscam “criar conteúdo” para receberem a atenção de outros digitalmente. Quase ninguém está imune a isso, visto que a condição e a expressão humanas estão, hoje, intimamente ligadas aos meios digitais e à produção de conteúdo, seja buscando o lucro ou a mera vontade de participar de comunidades; e até nós, da crítica, que tanto defendemos a necessidade da leitura e da atenção a filmes longos e pouco estimulantes, entramos nessa lógica. Por um lado, isso aproxima pessoas de locais distintos — como a própria Plano Marginal, que une pessoas de Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e do Distrito Federal —, por outro, torna até a intelectualidade uma engrenagem em um sistema complexo de digitalização e de superficialização da mente humana. Os “novos snuff movies” que falei antes, consistentes majoritariamente em vídeos de gore, são parte importante desse sistema por uma diversidade de razões.
Socialmente, ver a violência por prazer ou por curiosidade é tido como imoral. Entretanto, o que acontece hoje na era digital é uma nova versão do motorista que reduz a velocidade de um carro para ver um acidente: uma ação socialmente imoral, mas continuamente praticada pelos indivíduos, mesmo por aqueles que creem sinceramente nessa imoralidade. As redes sociais tornaram o ato de frear para ver o sofrimento alheio em lucro, sendo as ferramentas de censura uma mera performance — uma forma de mostrar ao público a presença da “ética” empresarial e de tornar as plataformas em uma democracia, na qual todos têm o poder de denunciar conteúdos. É, porém, uma democracia meramente simbólica e uma normativa intencionalmente ineficaz, visto que as plataformas lucram justamente pela economia da atenção, e por que um público que reduz a velocidade para ver um acidente de trânsito não faria o mesmo com um vídeo bizarro no Instagram? Simultaneamente, cria-se uma legião internacional de pessoas dispostas a manter a roda girando, seja assistindo a esse tipo de conteúdo, compartilhando ou, até mesmo, produzindo novas mídias eticamente questionável sob a promessa de alguns trocados das plataformas.
Esse não é apenas um comentário feito em Faces da Morte, como parte essencial do substrato da trama. Para além do passado de Margot — sobre o qual não vou aprofundar aqui para manter o texto sem spoilers, mas envolve questões sobre produção de conteúdo e sobre a generalização do desrespeito e da desumanização —, há o embate ético entre ela e a plataforma Kino, além da relação da rede social com o público. Se a pretensão do assassino é fazer um remake de Faces da Morte de 1978, Margot busca refazer Don’t F**k With Cats (o que gera uma boa piada no longa, inclusive), mas a produção de 2026 adiciona novos componentes a isso: agora, para além das discussões morais relacionadas ao longa de 1978 e a série da Netflix, vemos uma plataforma que atua puramente pela oferta e demanda, e que entendeu que não há ética no capitalismo, que a lógica financeira está presente em todas as esferas da vida, e que usuários já não tem mais a vergonha de admitir que consomem tais conteúdos e que se contentam com o wishful thinking de que aquilo é falso para justificar seu consumo. O longa capta bem essa relação, que se torna ainda mais absurda por retratar um zeitgeist real, o que dá à obra um niilismo crescente.

Há um vazio e uma desesperança que percorrem todos os ambientes: na empresa que quer alimentar a demanda do público a todo custo; nos conhecidos que se apoiam em comentários jocosos do tipo “vamos todos ao inferno mesmo” para prosseguir dando atenção aos vídeos; nas pessoas que encontram a protagonista e fazem comentários inconvenientes sobre um episódio delicado dela; e na própria Margot, que, mesmo tendo um passado que se relaciona diretamente com seu trabalho na Kino, no começo do filme é vista permitindo conteúdos duvidosos enquanto bloqueia outros que, apesar de úteis, parecem indesejáveis à plataforma — fazendo isso sem qualquer peso na consciência e apenas passando a intervir quando a ameaça se relaciona a uma culpa individual pretérita sua. Não vou adentrar nos detalhes, mas tal niilismo chega a seu ápice no terceiro ato, quando um ciclo parece se completar e as opções de solução do problema da trama se reduzem a uma mera continuidade do status quo. Sem esperança, sem justiça e uma conclusão que relembra como normas sociais só existem para a proteção de certos grupos.
Esses comentários, assim como o clima de vazio que progride a cada cena, são tão fascinantes que fazem o espectador esquecer o quanto a história, em si, de Faces da Morte é básica. Apesar da excelente ideia de reimaginar seu par dos anos 1970, como descrevi acima, não acho que a aplicação prática funcione tão bem. A opção de fazer um suspense protocolar não chega a tirar todo o poder dos objetivos do longa — especialmente o de comentar sobre o desenvolvimento dos conteúdos violentos ao longo das décadas — graças à competência do diretor em internalizar esse comentário à trama, de modo a gerar a sensação constante de vazio que mencionei antes.
Isso se une a uma dialética interessante entre inércia e movimento. Em um primeiro momento, tanto a protagonista quanto o assassino permanecem em seus postos, não se construindo a clássica história do “gato e rato” dos suspenses, aproximando-se mais do próprio Don’t F**k With Cats; mas tal trecho não se constitui em um mero adiamento da ação, e sim em uma tentativa de situar a obra como parte de um todo maior, o qual discuti exaustivamente no resto deste texto, e como mais uma parte que mantém a continuidade da franquia Faces da Morte. Após vermos as instituições deliberadamente ignorarem a situação e a empresa ser cúmplice involuntária do assassino, é que o movimento se instaura, de modo a dar à protagonista um motivo mais forte que o mero trauma para intervir diretamente no problema da trama. A distribuição desses dois momentos poderia ser melhor, visto que a ação propriamente dita é bem mais apressada do que deveria, dado todo o substrato sólido anteriormente construído; porém penso que tal confronto de opostos é o que deixa o longa dinâmico e com um caráter único em relação a seus pares do gênero suspense.
Ao lado disso, apesar da adoção da estrutura mais batida possível — que passa pela motivação da protagonista que parte de um trauma, pela descrença da polícia, pela organização metódica em atos, pela categorização dos personagens em tropos, etc. — acho que o suspense funciona minimamente. A encenação viva — que mistura um aspecto mais palpável dos filmes em película com particularidades do digital, o que adiciona a essa pretensão de continuidade com o filme de 1978 — e as atuações, com destaque a Dacre Montgomery que está assustador (no bom sentido), fazem a experiência ter um saldo positivo que não se resume à pertinência da crítica à contemporaneidade.
Ademais, a discussão sutil acerca da relativização moral de Margot — que, como comentei antes, somente passa a se importar com o problema coletivo quando ele atinge uma situação pessoal sua — dá uma substância interessante à totalidade do filme por significar um ponto de conexão entre o assassino e o espectador e brincar com a hipocrisia de quem assiste em relação ao prazer visual que este sente com uma produção dessa espécie; jogando na nossa cara como somos seletivos ao selecionar o que é imoral, o que é nojento ou o que é cruel o suficiente para justificar uma intervenção direta, assim como Margot.
Portanto, se Faces da Morte de 1978 era um retrato de uma decorrência curiosa de uma sociedade que descobria sua curiosidade mórbida por meio de fitas proibidas — e as sequências mostram como um curioso se torna um fascinado pelo sofrimento alheio —, Faces da Morte de 2026 é um olhar que questiona toda essa história, enquanto lança uma visão crítica para o futuro. Tantos anos se passaram e a técnica evoluiu absurdamente em tão pouco tempo, mas o ímpeto contraditório humano de renegar a violência enquanto continua dando atenção a ela é eterno; sendo tal fenômeno incorporado pela sociedade capitalista contemporânea, em que corporações se utilizam do niilismo, do moralismo seletivo e da provocação direta às emoções para ampliar seus lucros, ainda que pessoas sofram ou morram pelo caminho. Essa revisão do passado, somada a um chamado à reflexão sobre o presente, são excelentes, mas nem sempre tão bem encenados, pelo fato de o diretor, apesar de vários bons momentos, se apegar a um padrão confortável de narrativa, a qual, mesmo apresentando um fundamento interessante na primeira parte, não consegue traduzir esses pilares básicos tão bem ao suspense ou ao terror, perdendo parte de seu potencial. Ainda assim, Faces da Morte é um longa interessante, dinâmico, com ótimas atuações e intrigante o suficiente para justificar sua existência para além da pertinente cutucada no público.