Eu não sou dos esportes. Sinceramente, tenho pouquíssimo interesse por qualquer modalidade esportiva que seja. Oras, eu mal gosto de jogar videogames no modo multiplayer. Mas posso dizer que meu desinteresse pelos esportes em geral é, curiosamente, proporcional à minha empolgação com filmes esportivos. Alguma coisa me encanta na forma como as competições são encenadas no plano, especialmente a partir do lançamento de Rocky, um Lutador (Avildsen, 1976), que originou uma das minhas franquias favoritas nesse âmbito.

E é claro que eu não podia deixar de me empolgar com um filme sobre a Fórmula 1 dirigido por Joseph Kosinski, mesmo realizador que tornou Top Gun: Maverick (2022) um dos melhores exemplares do cinema de ação dos últimos dez anos. De fato, o novo F1: O Filme deve ser um deleite para os fãs do automobilismo e me divertiu bastante na sala de cinema durante seus quase 160 minutos de duração. Logo nos primeiros 15 minutos, o carisma do protagonista Sonny Hayes (Brad Pitt) – uma espécie de Maverick do asfalto – se mescla a uma composição de cena que transforma a pista no palco de um grande espetáculo nas 24 Horas de Daytona.

Depois dessa pomposa apresentação, entramos em um território familiar, onde o herói principal é convocado por seu amigo de longa data Ruben (Javier Bardem) para ajudá-lo a preparar o piloto novato Joshua Pearce (Damson Idris) e elevar a moral de sua azarada equipe Apex Grand Prix na nova temporada de Fórmula 1. Claro que isso será precedido de algumas recusas por parte do mocinho, além de algumas reflexões sobre seu papel no esporte dada a sua idade já avançada e o acidente que sofreu décadas antes. Enfim, Joseph Campbell se misturando nessa nova onda de choque geracional do cinema blockbuster. Nada além do esperado!

Na verdade, nem precisava ser. Existe uma crença equivocada por parte do público e até de uma parcela da crítica de que todo filme precisa ser inovador, original ou até mesmo revolucionário. Isso, além de impraticável, também mata a sensibilidade artística. Afinal, o simples, o clichê e o derivado podem ser eficientes dependendo da abordagem dada pelo seu diretor. E a principal direção que Kosinski trilha com F1: O Filme é reforçar a ideia de que a Fórmula 1 é um esporte coletivo, que tudo depende de uma equipe e não só dos pilotos. E, nas sequências automobilísticas, ele faz isso com louvor.

Por mais que nem todas tenham a mesma pompa visual da apresentação de Sonny, há um caos controlado na edição, que busca sempre dividir o foco entre os pilotos e os técnicos por trás dos carros. Em alguns momentos é até um pouco excessivo, mas compreensível, pela ideia construída por Kosinski aqui. Porém, quando sai das pistas, Pitt parece tomar todo o filme para si, não concedendo espaço nem mesmo para Idris. Claro que não é necessariamente um problema do ator, mas não pude evitar de pensar, novamente, em Top Gun: Maverick. Ou nos filmes estrelados por Tom Cruise, no geral. Afinal, Cruise, por também ser produtor de vários de seus filmes, parece sempre valorizar o trabalho em equipe na frente das câmeras. Por mais que seus protagonistas sejam claramente os maiorais, é notável como seus parceiros de missão recebem um destaque quase igualitário. Basta lembrar de Miles Teller e Glen Powell no filme de 2022, ou em suas recorrentes equipes na franquia Missão: Impossível (1996-2025).

O que eu quero dizer é que, ao basear seu filme na proposta do esporte coletivo, Kosinski falha ao não dar destaque aos seus coadjuvantes fora da pista. Até Bardem e Kerry Condon parecem estar no filme para serem, respectivamente, melhor amigo e interesse amoroso de Sonny ao invés de constituírem parte importante da tal Apex Grand Prix. É uma abordagem clássica, do “exército de um homem só”, transposta para o mundo automobilístico em um filme que parecia dispensar essa abordagem. Sem contar em todo o tropo de “salvador branco” que o filme reforça de forma bem desnecessária entre Sonny e Pearce, que geraria uma discussão mais vasta para além desse texto.

Mesmo com seus problemas, F1 é um blockbuster divertido, liderado por um protagonista carismático e que, é claro, demonstra seus principais méritos ao presenciar os pneus queimando o asfalto das pistas em uma velocidade que contamina a própria forma do filme. É filmão para ver na sala IMAX mais próxima!