“De certa forma, é uma espécie de destino dos palestinos: não acabar onde começaram, mas em algum lugar inesperado e distante.”
Com essa frase de Edward Said, começa Em Rumo a uma Terra Desconhecida, drama palestino com a colaboração de uma diversidade de países que conta a história de Chatila e Reda, dois primos palestinos refugiados na Grécia, onde se tornam criminosos pelo desespero em sobreviver no país e emigrar para a Alemanha. No meio do caminho somam-se outros fatores às já difíceis condições dos refugiados, como a criança Malik, que tenta se reencontrar com sua tia na Itália e o vício em heroína de Reda.
Com fortes inspirações neorrealistas, o longa de Mahdi Fleife mostra pessoas perdidas em uma Atenas bem longe dos monumentos de arquitetura e filosofia a que estamos acostumados. O cenário desolado parece uma versão moderna daqueles a que estamos acostumados a ver em obras como Alemanha Ano Zero (Roberto Rosselini, 1948) e Ladrões de Bicicleta (Vittorio de Sica, 1948) e, tal como nesses filmes, é parte integrante do processo de tomada de decisão dos personagens. Em condições como essas, não há como a moralidade persistir, apenas o desespero.
Esses aspectos tornam Em Rumo a uma Terra Desconhecida um filme muito importante em tempos de genocídio palestino. Mesmo que não se dedique a mostrar a terra arrasada que Israel gera diariamente, mostra as consequências disso, em especial o crime e o vício. Esse sofrimento constante tem uma abordagem pendular: ora se assemelha a essa crueza do neorrealismo, ora busca um fetichismo barato, inclusive com uma trilha sonora invasiva para pontuar sentimentos. A forma como o diretor busca retratar esse sofrimento não chega nem perto da visão asquerosa de longas como O Menino do Pijama Listrado (Mark Herman, 2008), porém ainda busca infiltrar em uma esfera extremamente pessoal da dor, com o único propósito de emocionar quem assiste, utilizando-se da pena e da compaixão. Felizmente, quando opta por mostrar ocasiões mais extremas, não as transforma em espetáculo, mas usa a sugestão, o que é um ponto positivo.
Não pude deixar de notar também como esse olhar do diretor esconde uma visão um pouco eurocêntrica dessa história. Primeiramente, por utilizar da Alemanha como uma nova versão do sonho americano dos anos 1980 — o que, por um lado, é compreensível, dadas as condições dos protagonistas; contudo, acredito que falta um contraponto a essa idealização. Segundo, por se limitar à comoção pelas imagens sem dar um contexto maior ao sofrimento, despolitizando o filme e fazendo-o tornar-se apenas uma visão de cima para baixo da dor.
Entretanto, não acho que isso tire a qualidade do drama desse filme, tampouco sua importância. São reflexões que não anulam as tantas outras que Em Rumo a uma Terra Desconhecida gera sobre como os palestinos se veem e são vistos: um povo que sequer tem direito a uma terra, e que é destruído apenas por existir. A partir da Grécia, vemos uma outra destruição que nunca podemos esquecer. Palestina livre!