Ao terminar de rever Edifício Master, não pude deixar de me perguntar: se a fatalidade que matou Eduardo Coutinho não tivesse acontecido, o que seria de seu cinema? Afinal, o cineasta faleceu em fevereiro de 2014. Os protestos de 2013 tinham acabado de ocorrer e a eleição que iniciaria uma era de polarização hostil, entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, estava a alguns meses de distância. A internet ainda não havia se consolidado como a ferramenta assustadora que é hoje e muita coisa mudou desde seu póstumo Últimas Conversas (2015), no qual entrevistava jovens e concluía conversando com uma criancinha; uma criancinha que hoje deve estar próxima dos seus 18 anos. É, o tempo é estranho quando posto em perspectiva.
Mas por que eu reflito sobre esse “e se…”? Eu fico muito em conflito, pois não sei se o mundo de hoje mereceria Eduardo Coutinho, mas definitivamente precisaria dele. Digo isso porque é simplesmente impossível não concluir seus documentários do novo milênio sem amar a Humanidade. Existia uma sensibilidade sobrenatural em Coutinho ao extrair confissões, anseios, memórias de seus entrevistados, livre de julgamentos, a ponto do pensamento final mais comum na mente dos espectadores ser a empatia, a aceitação desse mosaico urbano genuinamente brasileiro, um raio-X que revela contradições individuais e sistemáticas de forma naturalíssima. Há uma beleza na trivialidade capturada pela câmera de Coutinho nos casebres de Santo Forte (1999), nos barracos de Babilônia 2000 (2001) e nos apartamentos dessa sua obra-prima de 2002.
O próprio realizador reconhece isso em três momentos emblemáticos. No primeiro, quartos e salas, ao contraluz das janelas abertas, são mostrados consecutivamente a partir do mesmo enquadramento estático, justamente para destacar as particularidades de cada lar, com suas influências decorativas específicas. No segundo, uma espécie de intervalo é composto por um garoto saindo para a escola e avisando a um de seus vizinhos que seu gatinho estava trancado do lado de fora, em um longo corredor recheado de portas padronizadas que escondem as particularidades supracitadas. E no terceiro, o plano que fecha o filme flerta com Alfred Hitchcock em seu Janela Indiscreta (1954), dessa vez encarando o Master do lado de fora para dentro das inúmeras janelas, cada uma com moradores em atividades distintas, sob luzes e cores diferentes, como se estivessem em seus próprios microcosmos, protagonizando os filmes de suas próprias vidas.
Essa é uma beleza poética que poucas superproduções fantásticas me garantiram na vida. E é claro que as pontes entre esses momentos são formadas por sequências de entrevistas reveladoras e emocionantes que, por si só, já valem como curtas de uma grande obra antológica. Esta, por sua vez, gera um retrato do Brasil a partir da porta dos fundos de um de seus maiores cartões postais: a praia de Copacabana. Um prédio residencial que abarca uma prostituta, um ex-jogador de futebol aspirante a músico, um ator veterano de cinema e TV, uma imigrante espanhola, um trio musical independente, uma autora de livros infantis, um vendedor ambulante de amendoins e várias personalidades a poucos passos do famoso Calçadão. Destaque para “UM prédio”, dentro de uma selva de pedra! Há um encanto por essas histórias individuais justamente por botar em perspectiva a dimensão da vida de cada ser humano não apenas na cidade do Rio de Janeiro, mas também no Brasil, na América do Sul, no mundo.
Mas há uma particularidade em Edifício Master se comparado a outras obras do mesmo formato dirigidas por Coutinho: o contraste entre a natureza cosmopolita do bairro turístico de Copacabana e o isolamento e incomunicabilidade da vida em apartamentos empilhados e enfileirados nessas enormes caixas de concreto. Como de costume, o diretor não julga o estado de vida daquelas pessoas, mas há uma atmosfera solitária que percorre quase todo o longa. Uma melancolia subjacente que ascende à superfície em momentos muito pontuais, seja na lembrança de um ente querido que se foi, seja na reflexão sobre a dura realidade do momento presente. Isso quando a melancolia não se transforma em algo muito mais poderoso… e eu garanto que quem já assistiu ao documentário sabe exatamente de qual entrevista eu estou falando. Permitam-me dedicar um trecho só a ela.
Faço isso porque a conversa com o Seu Henrique não só é uma ascendente poderosa da obra – reconhecida, em locação, pela câmera que parece se fascinar cada vez mais pelo momento que captura. Também é sua síntese. Poucas vezes eu vi um uso tão impactante da música diegética em cena. Após contar sobre seu acidente doméstico que quase tirou sua vida e sobre o destino de seus filhos, que estão do outro lado do mundo vivendo suas realidades promissoras, Henrique relata a vez que cantou com Frank Sinatra ao trabalhar em um evento nos EUA. Ao colocar a música My Way para tocar, o idoso se emociona ao se identificar na letra sobre um homem que, certo ou errado, viveu a vida à sua maneira e não se arrepende do caminho que trilhou. Em maior ou menor grau, essa identificação com a canção de 1969 pode valer para todos os entrevistados e talvez defina a realidade do brasileiro médio. Mesmo com suas dores, suas agonias, há uma auto-aceitação comum a praticamente todos os habitantes do Edifício Master que, em maior ou menor grau, é tão edificante quanto a força dramática de Henrique balançando sua mão como um maestro ao som dos metais enquanto veste uma camisa de São Francisco de Assis.
A beleza trivial de Coutinho atinge, então, seu ápice com Edifício Master, transformando a história de inúmeros cidadãos comuns em epopeias melancólicas ou crônicas cômicas. Um reflexo de uma cidade que, mesmo com seus problemas e contradições, se orgulha de sobreviver à sua própria maneira. Eu amo meu Rio de Janeiro. Eu amo meu Brasil! Muito obrigado, Coutinho, e que esse país ainda lembre de sua obra para poder sobreviver um pouco mais…