Quando revi a primeira cena de Duna, abordando os sonhos de Paul e dando um contexto geral daquele universo, estava disposto a mudar totalmente minha opinião em relação à primeira visita ao filme. Se, daquela vez, havia achado o filme apático, agora estava deslumbrado. Infelizmente, a felicidade foi momentânea.

Aquilo que se faz no restante pode ser resumido em frio. Eu entendo parcialmente essa característica, uma vez que no filme acompanhamos Paul Atreides (Thimothée Chalamet), filho de Leto Atreides (Oscar Isaac) designado para comandar o inóspito planeta Arrakis, local que guarda uma das especiarias mais valiosas do universo, e se vê envolvido em uma complexa trama política quando precisa lidar com o Barão Harkonnen (Stellan Skarsgård) e os fremen, povo nativo do planeta. Dada a proposta da história, eu acho compreensível uma visão menos fantasiosa, ainda que, a priori, uma coisa não anule a outra (a estética de David Lynch, com todos os seus problemas, está aí para provar isso).

Não é compreensível, porém, que mesmo os trechos com forte peso emocional, seja de desenvolvimento de relações interpessoais ou de exploração do medo e do desespero frente aos perigos daquele planeta, sigam a mesma estética. É tudo sem contraste, e nem me refiro somente ao fato de todo trecho ser azulado, laranjado ou cinza, a depender do contexto. Villeneuve não tenta criar uma diferenciação, seja entre a natureza dos planetas — já que Arrakis tem uma estética e todos os outros compartilham uma outra, como se fossem a mesma coisa —, entre um trecho feliz e um triste, entre um momento calmo e um de desespero, ou até entre os povos abordados.

Apesar de o diretor bater na tecla de diferenças culturais e se referir ao tema da colonização, os Fremen e os colonizadores (tanto Artreides quanto Harkonnen) guardam muito mais semelhanças do que distinções. Parece que o diretor, na busca por um “realismo”, acaba caindo em uma homogeneização geral.

Talvez por isso — pela falta de individualidade — que a trama, mesmo dedicando muito tempo ao desenvolvimento dos personagens, não consegue engajar nenhuma emoção em relação a eles. É a única explicação que tenho, considerando que o tempo de tela é adequado, o elenco é ótimo (com exceção de Chalamet, cuja inexpressividade não ajuda) e a base do livro é maravilhosa.

A pouca emoção do filme acaba sendo proveniente de uma conexão com a história, no meu caso proveniente do meu apego à obra literária, e da trilha sonora incisiva, que praticamente força os sentimentos. Por exemplo, na cena do ataque do verme perto do final, a fotografia é terrível, a ponto de mal dar para distinguir os acontecimentos; contudo, a trilha sonora está lá pontuando que é um momento tenso, mesmo que toda a composição restante não faça nada para tanto.

No fim, Duna é maçante, e da pior maneira possível. Um épico com uma das melhores tramas do gênero reduzido a um realismo vazio fundamentado em uma decupagem que não reconhece a grandeza do filme.