A história de Frank Herbert ganhou a fama de ser uma obra inadaptável, fama essa muito impulsionada por suas polêmicas adaptações prévias, que possuíram uma grande dificuldade em transferir a demasiada grandiosidade do universo de Duna para a tela, uma grandeza não apenas estética, mas também narrativa. O desenrolar de disputas políticas e comerciais, somadas à construção de noções religiosas de um mundo medieval em meio ao espaço que perduram por séculos, unida a aspectos literários acerca de pequenos detalhes específicos de uma história que possui sua gênese fortemente baseada na escrita parecia praticamente impossível de adaptar. Apesar dessa noção, o cinema nos mostra que nada é impossível, uma boa adaptação não se origina de fidelidade narrativa, mas sim do entendimento de como aquela história poderia ser encenada na sétima arte, e Denis Villeneuve, aparentemente, deteve esse entendimento.

O primeiro longa do diretor exerce um certo distanciamento dos acontecimentos que se desencadeiam com a ida da Casa Atreides para o planeta Arrakis, como se abrisse mão do desenvolvimento intrínseco da história de Paul Atreides para dar um maior espaço para a grandeza dos acontecimentos políticos e épicos da história de Duna. Muito de sua autoria, aqui, parte de como ele consegue enfatizar tanto as cenas que envolvem a jornada messiânica do protagonista quanto o desenrolar do conflito ideológico do poder, tudo isso sendo encenado sob uma ótica afastada, como se sua narrativa partisse de um olhar externo, acompanhando o desenrolar de eventos históricos registrados por um livro. Com isso, forma-se uma introdução de todo aquele mundo que se constrói a partir das hostilidades políticas do Império e naturais do deserto, e não apenas isso, mas também uma apresentação de Paul e sua aura de messias a Arrakis, um planeta que o rejeita e rejeita sua família, uma direção específica a esse filme que funciona muito bem em ser uma preparação para sua sequência.

Em Duna: Parte 2, Villeneuve parece abandonar esse distanciamento para os personagens e, além disso, buscou enaltecer fortemente a enorme grandiosidade da narrativa épica de Duna, partindo de uma ótica mais intimista em relação aos seus núcleos em meio aos grandes acontecimentos do filme. O diretor executou uma abordagem clássica em relação ao blockbuster de ação, estabelecendo uma relação unilateral entre o complexo desenrolar de uma trama, acima de tudo, extremamente política, com os dramas pessoais daqueles que a compõem, uma ideia que rejeita a estética megalomaníaca, ao mesmo tempo que mantém esse gigantismo visual dos elementos fantásticos e ficcionais que dão vida a aquele universo.

Em vários momentos, a trilha sonora de Hans Zimmer potencializa o teor épico desses mesmos elementos. Usando de exemplo a cena em que Paul (Timothée Chalamet) monta o verme pela primeira vez. A música de Zimmer, somada aos planos bem abertos do deserto, concede um nível de imersão grandioso ao momento, digno de uma narrativa que abraça sua noção de grandeza, sem nunca abandonar a individualidade de seus personagens.

O visual de seu cenário também sofre uma grande evolução estética desde o primeiro longa. Se outrora, Villeneuve mantinha uma paleta cinzenta em todos os seus planos, dessa vez essas cores variam para o ambiente no qual a história se passa. Arrakis é desértica e calorenta, suas cores quentes evidenciam o sol ardente e o calor exalado pelas areias, Giedi Prime é sem cor, sem vida, a terra daqueles que desprezam todos os seres, o preto e o branco os ausentam de alguma humanidade, e assim vai para um diretor constantemente contestado por sua ótica que almeja um realismo vazio, aqui temos um filme que se utiliza de forma incrível da composição visual das cores.

“Você quer controlar um povo? Diga a ele que um messias virá e eles esperarão”

A frase dita por Chani (Zendaya), explicita muito bem a ideia que a narrativa de Duna idealiza. Paul não se torna o messias do povo de Arrakis por uma mensagem ou chamado divino, mas, sim, a partir de uma manipulação de massa e por interferências políticas que perduram por séculos. Sua jornada messiânica não passa de um processo histórico cuidadosamente planejado e manipulado para o objetivo de um grupo que busca o poder. Partindo disso, o poder político da fé e da religião é posto em evidência em uma história de ficção científica que replica a realidade para construir sua trama que atinge proporções universais, isso a partir da câmera que capta o potencial épico do cinema.

Duna: Parte Dois, então, se torna um apogeu para as grandes histórias, e como essas mesmas podem ser apresentadas pela ótica cinematográfica, como se o cinema possuísse sua forma própria para contá-las, expondo sua grandiosidade fantástica pela grande tela.