Drag Queens: sete filmes sobre a arte drag no cinema
Drag queen é uma performance que consiste no exagero de códigos indicativos do gênero feminino. No entanto, existem múltiplos tipos de drag, indo desde a comédia ao horror, já que esse exagero pode tanto existir na sutileza necessária para mimetizar uma aparência cotidiana (vide Rita Von Hunty) quanto ser levado a extremos que desconstroem o rosto humano (como Leigh Bowery e Johannes “Hungry” Jaruraak). A arte drag pode ser feita por pessoas de qualquer gênero ou sexualidade, sendo mais comum entre os homens cis gays. Existem diversas maneiras de expressão dessa arte, sendo as mais recorrentes por meio do teatro, da comédia e/ou da música. A criação de uma persona também a distingue de apenas uma atuação ou cross-dressing.
O primeiro registro de alguém se auto intitulando como drag queen é de William Dorsey Swann, homem negro abertamente gay que promovia bailes nas décadas de 1880–1890, em Washignton, D.C. Nos cinemas, as drag queens estão presentes desde o início, sendo populares durante a década de 1920, mas sofrendo com diversos tipos de censura ao longo dos anos. Recentemente, na década de 2010, as drag queens voltaram com força a partir de programas como o reality show RuPaul’s Drag Race (2009–hoje) e a ascensão de artistas como Pabllo Vittar.

Pink Flamingos
Em Pink Flamingos, Waters ultrapassa qualquer barreira do bom gosto ao encenar a disputa entre a drag queen Babs Johnson, a pessoa mais nojenta do planeta (vivida por Divine), e o casal Raymond e Connie Marbles, que faz os maiores absurdos para derrubar Babs. Assim, todos os personagens participam de cenários extremos, indo de canibalismo a zoofilia, sem pudor algum. Inicialmente banido em diversos países, hoje é um clássico preservado na Biblioteca do Congresso dos EUA e é considerado um dos principais filmes queer de todos os tempos, além de ser inspiração para o movimento punk e para a vilã Úrsula, de A Pequena Sereia (Musker e Clements, 1989).

Outrageous!
O canadense Outrageous! conta a história de Robin Turner, um cabeleireiro frustrado que acolhe uma amiga esquizofrênica recém-saída de uma clínica psiquiátrica. Ao vencer o concurso de fantasias de uma festa de Halloween, vestido de Tallulah Bankhead, Robin passa a fazer sucesso performando como drag, imitando outras atrizes e cantoras famosas. No entanto, ao perder o emprego e precisando prover para a amiga, que está grávida, ele decide tentar a sorte nos palcos de Nova York. É um filme que trata muito bem a questão da saúde mental e da união dentro da comunidade, além das imitações perfeitas do ator e drag queen Craig Russell.

Vegas in Space
Vegas in Space é o que se obtém ao misturar Barbarella (Vadim, 1968) com os esquetes de comédia de RuPaul’s Drag Race; é uma ode ao kitsch. Feito de maneira independente por drag queens e para drag queens, o filme parte de uma premissa boba de ficção científica para brincar com cenários e figurinos elaborados, e entregar um humor cheio de trocadilhos, piadas de duplo sentido e referências a clichês do gênero. As produções fabulosas das personagens enchem os olhos, mostrando o primor e a autenticidade que se tem ao colocar profissionais da arte drag na tela.

Priscilla, a Rainha do Deserto
A famosa Priscilla é o ônibus que as drag queens Mitzi, Bernadette e Felicia usam em sua jornada de Sydney a Alice Springs, cruzando o deserto australiano para fazer um show. O senso de humor do filme é tão seco quanto o próprio deserto: busca o ridículo no cotidiano, no pessimismo, no constante contraste da vastidão das areias e a precariedade dos vilarejos com o glamour e a extravagância das drag queens. Os conflitos entre as personagens e as dificuldades de suas vivências são tratados de forma natural e autêntica, trazendo ao filme uma verdade dramática que ancora sua atmosfera camp. Não é à toa que esse se tornou um clássico!

Para Wong Foo, Obrigada por Tudo! Julie Newmar
Apesar de ser outro filme de estrada sobre três drag queens em uma longa viagem (aqui, de Nova York a Los Angeles), esse é um longa que parte dessa premissa para tratar de diferenças culturais, comunidade e empoderamento feminino. As drag queens veteranas Vida e Noxeema, juntamente com a inexperiente Chi-Chi, estão montadas a bordo de seu carro conversível quando um problema mecânico as força a parar em uma cidadezinha rural enquanto aguardam o conserto. Com medo da homofobia, as três decidem fingir que são mulheres cis e sua presença ali irá inesperadamente impactar a vida da comunidade local.

Kinky Boots
Nesta comédia britânica, Chiwetel Ejiofor é uma drag queen chamada Lola, que precisa de sapatos mais resistentes para suas performances. Joel Edgerton é Charlie, herdeiro de uma fábrica de sapatos masculinos que está endividada. Os dois vão então unir seus interesses para criar botas especiais para drag queens. Baseado em uma história real, o filme apresenta as artistas como algo exótico em um meio hétero e predominantemente masculino, mas também como uma ponte para que dois universos distintos possam conviver. Além de ter se tornado um clássico cult na comunidade queer, o longa também inspirou a criação de um musical em 2013.

A Filha do Palhaço
A drag queen Silvanelly faz shows de humor em Fortaleza. O cotidiano de seu intérprete Renato muda quando sua filha adolescente, Joana, que ele não vê desde bebê, aparece para passar uma semana em sua casa. Na busca por uma conexão, pai e filha acabam aprendendo com suas diferenças e amadurecendo. Os cenários e a iluminação do filme criam uma atmosfera que ilustra o estilo de vida de quem trabalha na noite, e também transmitem as alegrias e a decadência dessa vida. A personagem Silvanelly é inspirada na drag queen cearense Raimundinha; traz uma caracterização particularmente exagerada, que de fato remete às drags antigas brasileiras.