O TEXTO A SEGUIR CONTÉM GRANDES SPOILERS!!!

Podemos dizer o que quisermos sobre Alejandro G. Iñárritu, mas não podemos negar que o sujeito tem ambição. Uma ambição tão grandiloquente e maximalista que lhe rendeu a fama de ser um dos cineastas mais pretensiosos de sua geração. Isso desde sua Trilogia da Morte, composta pelos dramas Amores Brutos (2000), 21 Gramas (2003) e Babel (2006), até seus longas internacionais de maior impacto comercial, como os oscarizados Birdman (2014) e O Regresso (2015).

Como muitos artistas ambiciosos da contemporaneidade que não sejam apolíticos como um Christopher Nolan, seria só uma questão de tempo para o diretor mexicano endereçar suas superproduções de grande elenco à atual situação dos EUA e o segundo mandato caótico (sendo bem eufemista) de Donald Trump – além de todas as crises climáticas sofridas pelo planeta por causa das contradições capitalistas. E, chegado este momento, nada anunciava que sua maior parceria seria com outro cineasta de extrema egolatria e que, para muitos, representa o perfil mais caricato do americano branco negacionista: o porta-voz da Cientologia, Tom Cruise.

Digger chega então com essa parceria que, ao mesmo tempo, soa inacreditável pelo tema do longa e também parece extremamente pertinente. Acompanhando o magnata do petróleo Digger Rockwell (Cruise) no processo de resolver uma crise que ele mesmo criou e que pode causar um genocídio justamente na Europa Ocidental (se fosse na América Latina ou na África, a preocupação provavelmente seria bem menor). O filme revela uma camada adicional em seus primeiros 30 minutos de projeção, mostrando que todo aquele absurdismo na encenação da vida de Rockwell se trata de uma peça de teatro futurista, em um mundo já devastado pelas ações do bilionário.

Aproveitando-se desses dois níveis de metalinguagem dramática, Iñárritu tem a chance de tecer um comentário interessantíssimo sobre como as obras audiovisuais pretensamente politizadas dos últimos anos – em especial, da Era Trump – abusam da autoconsciência irreverente e debochada para criar um efeito anestesiante no público diante da dura realidade, diluindo o caráter de protesto urgente que poderia ser mais eficiente em situações tão trágicas e calamitosas. Basicamente, o modelo tão replicado da série The Boys, que eu tanto cito nos meus textos. E, de fato, o personagem de Cruise (no caso, o ator Curtis Markson, que interpreta Digger na peça) chega a protestar contra esse tom homogeneizado da ironia política do mainstream, comentando até sobre a diretora moderninha chamada para conduzir o espetáculo (vivida por uma ótima Sophie Wilde), algo que me lembrou alguns comentários de Acampamento Miasma (Schoenbrun, 2026).

Porém, é justamente nesse momento que o realizador faz uma escolha: colocar o personagem de Jesse Plemons, sobrinho do personagem-título, para monologar todas as intenções não apenas do filme como da peça Fossil Fools no uso desse tom de deboche, usando a lógica de que, em frente a tragédias, é melhor “rir para não chorar”. Como membro da família do causador da catástrofe global, é muito fácil ter essa postura, não é verdade?! Isso seria uma boa forma de Iñárritu estabelecer as hipocrisias da elite, mas ele só toma como verdade e baseia seu longa inteiramente nas palavras desse jovem ricaço.

Meu foco nesse trecho do filme é justamente por considerá-lo o momento-chave que explica o porquê de Digger não funcionar para mim. A crítica que ele faz de forma tão supostamente sagaz se esfacela por uma falta de compreensão da hierarquia de classes e pela adequação a uma fórmula boba de comentar política sem assumir grandes riscos, justamente ridicularizando todo mundo e perdendo-se em digressões filosóficas mal encaixadas na narrativa. Da mesma forma que Digger, o presidente norte-americano e os outros homens da alta cúpula geriátrica dos EUA são caricatos, os cientistas e personagens mais centrados também o são, e o foco nunca deixa de ser a peça intra filme, com seus bastidores sendo pouquíssimo explorados a ponto de esquecermos em parte que eles estão lá.

Uma pena, já que o desfecho do longa propõe uma imersão muito maior, reconhecendo o estado do mundo à nossa própria volta. Aqui, os créditos ecoam o fim da própria peça durante a saída para um mundo já devastado política, social e ambientalmente, concluindo em um tom muito mais incisivo e cirúrgico do que todo o resto do filme. A própria sátira à demográfica dos poderosos, sendo todos homens brancos, heterossexuais e idosos, por mais óbvia que seja, funciona em momentos pontuais, como aquele dos mísseis que torna bem clara a referência a Dr. Fantástico (Kubrick, 1964), aquele da sala de conferência que envolve a (falta de) presença de mulheres ou aquele da Sala de Guerra que se transforma em um cinema com direito a pipoca para o “filme de terror” das tragédias ambientais. A própria estética esbranquiçada transforma a imagem em uma espécie de “pureza” decadente desses grupos.

No geral, existe um bom filme em Digger, uma comédia aos moldes do filme de Kubrick ou do próprio A Morte de Stalin (Iannucci, 2017). Porém, a abordagem grandiloquente e, ao mesmo tempo, óbvia e míope de Iñárritu sobre seus próprios temas tornam seu filme ora superficial demais, ora disperso demais. Será que a Era Trump é tão desprezível que até suas sátiras merecem ter sempre essa cara? Vamos esperar o futuro para confirmar e que ele não seja tão caótico quanto aquele causado por Digger Rockwell.