Durante a transferência entre dois campos de concentração nazistas, dois jovens judeus escapam do trem e tentam sobreviver enquanto suas mentes são invadidas por lembranças, desejos e delírios.

Diamantes da Noite é inspirado no livro autobiográfico “Darkness Has No Shadow“, de Arnošt Lustig. Apesar disso, apoia-se muito pouco em palavras para conduzir seu enredo; é uma obra que acredita imensamente no poder imagético do cinema, não só pelos momentos mais angustiantes em que os garotos sofrem de maneira mais física os males da violência, da fome e da sede, mas também em decorrência da “desespacialização” — ou seja, a subversão da apreensão das relações espaciais demonstradas no meio audiovisual — e da desorientação da montagem.

Essa desorganização, aliás, é característica do período histórico em que o cinema da antiga Checoslováquia passava, a chamada “Nova Onda do Cinema Checoslovaco” (ou nouvelle vague checa), movimento da década de 1960 marcado pelas narrativas não lineares, pelos visuais pouco tradicionais e por temas políticos e sociais representados de maneira crua. Esse movimento se aproximava da nouvelle vague francesa, porém também se distanciava, por tratar de assuntos considerados mais “fortes” e por investir em uma composição ligeiramente mais surrealista e absurda do que seu correspondente francês.

Evidentemente, desorientar o espectador não faz de um filme automaticamente bom. Contudo, felizmente é o caso de Diamantes da Noite, visto que o diretor Jan Němec é bastante perspicaz em misturar o real e o irreal, de modo a dar a quem assiste um pouco da sensação de passar por uma situação como aquela.

Misturam-se as linhas temporais, com o pacífico passado em Praga invadindo a mente dos protagonistas e demonstrando o quão rápido uma vida normal se tornou o inferno aqui representado; mas também as perspectivas do real e do imaginado (ou desejado?). Por exemplo, em uma certa cena, um dos adolescentes vai à casa de um casal pedir comida e, ao chegar lá e encontrar a mulher sozinha, é impregnado por um turbilhão de cenários imaginados que passam, principalmente, pela agressão e pelo sexo.

Nesse momento, mesmo sem qualquer palavra, é possível notar como o rapaz se sente, apesar de não ser possível determinar ao certo a natureza de tudo que é imaginado. Talvez ele pense em agredi-la por medo de que ela os denuncie aos oficiais, mas talvez ele tenha vontade daquilo, independentemente do motivo. E, no momento em que, rapidamente, o sexo se apresenta, lembramos que é apenas um garoto, com todas as suas dúvidas e complexidades, em um contexto que o priva dessa humanidade. Essas ofertas de interpretação aparecem eventualmente no filme, porém nunca são respondidas, o que só reforça a desorientação tanto dos personagens quanto do espectador.

Justamente por essa relativização do real, os espaços são constantemente distorcidos. Não por meio de mudanças em suas formas, como ocorre em O Gabinete do Dr. Caligari (Wiene, 1920), mas pelo fato de o diretor não dar oportunidade para que o espectador se encontre naqueles espaços. Os planos são próximos demais e o tempo em cada cena é bastante curto, de modo a dificultar essa noção de progressão e de ambientação e beneficiar a desorientação que comentei anteriormente.

Diamantes da Noite não precisa romantizar a violência, tampouco ser apelativo, para ser forte. Ao acompanhar dois rapazes que sequer têm nomes (novamente, a desumanização aparecendo) passarem por uma jornada que alterna entre o real e a imaginação, causa uma angústia que toca os sentidos além da racionalidade, de forma a fazer o espectador sentir a perda da humanidade dos personagens como se sua fosse.