Não é novidade o quanto Steven Spielberg ama trabalhar com alienígenas, algo que tornou o diretor em um dos grandes autores da ficção científica no cinema. Em seus longas Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e E.T o Extraterrestre (1982), Spielberg naturalmente buscava retratar os seres de outro mundo como uma raça inteligente que, ao contrário do estereótipo de invasor, que foi fortemente influente durante os anos do pós guerra no cinema estadunidense, apresentava um verdadeiro contato amistoso com os seres humanos, um processo de humanização do desconhecido muito famoso no cinema do diretor.
Filmes como Vampiros de Alma (Siegel, 1956) e Guerra dos Mundos (Haskin, 1953) fomentaram essa imagem de intruso agressivo, algo diretamente ligado à paranóia da Guerra Fria durante esse período. Em outras palavras, os alienígenas invasores do cinema clássico falavam sobre os temores da sociedade americana diante de um mundo marcado pela ameaça nuclear e pela rivalidade entre superpotências, exercendo uma sensação constante de que o inimigo poderia surgir a qualquer momento.
Depois de realizar o remake Guerra dos Mundos (2005) e se aventurar nessa onda das grandes invasões vindas do céu, Spielberg volta a trabalhar com a temática dos alienígenas em Dia D (2026). Indo no sentido contrário de seu último filme no subgênero, o novo longa do diretor retorna com a clássica abordagem humanista de seus antigos filmes que, desta vez, está acerca de uma conspiração para revelar grandes segredos para a população humana.
Como de costume, Spielberg mantém um apreço e uma fascinação vívida pela fantasia em tela, algo que nunca deixou de se ausentar de seu trabalho no cinema, realizando isso atém mesmo em longas como Amor, Sublime Amor (2021), com toda a montagem e o visual espetaculoso e no maravilhoso Os Fabelmans (2022), onde o diretor aplica toda uma mística pelo cinema em uma história completamente simplista, surgindo dessa forma um certo tipo de ode a imagem filmada. Em Dia D os elementos de ficção científica nunca são explícitos, ou explicados de quaisquer maneiras específicas, eles são completamente naturais e lógicos dentro daquele pequeno universo, o que gera grandes cenas de ação desenfreada e momentos dramáticos fortes.
Conforme mencionei previamente, Spielberg usa uma abordagem bem diferente de Guerra dos Mundos, muito na maneira sobre como o contato entre o humano e o alienígena é retratado, e, por outro lado, segue uma ideia muito parecida na maneira de narrar esses acontecimentos. Dessa vez, os núcleos principais se baseiam em uma lógica de perseguição constante, onde Daniel Keller (Josh O’Connor), foge com alguns objetos almejados por uma corporação secreta, e Margaret (Emily Blunt) é uma jornalista que se vê de forma inesperada dentro desse conflito por conta de uma experiência extramundana. Todos esses acontecimentos já começam nos primeiros segundos do filme, onde não há aquele clássico desenrolar inicial da história, ela já começa em seu ápice. Assim, até mesmo o significado de certas ações ficam desconhecidas ao público por grande parte da história, algo que provoca um certo tipo de estranhamento e mantém a narrativa bem fluida, e reveladora.
Dessa forma, quase toda a presença física dos alienígenas em si é bastante tímida ao longo da narrativa, possuindo grande parte foco em sua trama conspiratória que guia a maior parte de toda a história. Esses elementos sutis acerca da imagem dos extraterrestres (que seguem a clássica aparência do baixinho cinza com cabeças e olhos grandes), não é nem de longe um demérito do filme, muito por conta do que Spielberg realiza com isso nos minutos finais. Digo isso pois toda a trama de Dia D se baseia no descobrimento da verdade, verdade essa que se encontra em diversos documentos com imagem gravada. No fim de sua história, Spielberg realiza quase que um salmo acerca da importância emocional da imagem em si, sendo dessa forma que ele opta por revelar as verdades ao mundo, a partir de filmes.
O principal detalhe que faz Steven Spielberg possuir um grande apelo popular, é a presença do viés dramático e humanista em praticamente todas as suas obras. Visualmente, seu humanismo se revela na forma como captura rostos e expressões. O olhar dos personagens frente ao maravilhoso ou ao terrível costuma ser privilegiado por Spielberg. O conhecido “Spielberg Face” — quando a câmera captura alguém admirando algo extraordinário fora do quadro — convida o espectador a vivenciar uma emoção antes mesmo de saber o que está sendo observado. O foco principal não está no espetáculo em si, mas no efeito humano que ele causa.
Portanto, mesmo quando seus filmes abordam temas grandiosos, eles preservam uma escala pessoal, não sendo diferente em Dia D. De acordo com o diretor, a empatia é uma força que pode unir pessoas, culturas e até mesmo diferentes espécies. Seu cinema é caracterizado pela noção de que o desconhecido deve ser entendido antes de ser temido, e que a conexão humana é mais valiosa do que o conflito. Essa perspectiva, transmitida a partir da imagem, o torna um dos cineastas mais otimistas e humanistas da história de Hollywood.