Filmes sobre moda são um tipo intrigante de cinema, pois abordam um aspecto bastante relevante do ser humano no meio social: as aparências. A forma como alguém se apresenta ou a primeira impressão que causa tem um certo peso no convívio exterior. Nesse contexto, a moda surge como um elemento ligado à autoafirmação, à autoestima e ao pertencimento, como uma padronização dos comportamentos. Não por acaso, é comum que a personalidade de uma pessoa seja julgada a partir do conjunto de roupas e acessórios que ela utiliza. Demônio de Neon se insere com força nesse universo ao explorar um onirismo estilizado, ao mesmo tempo chamativo e intrigante em seus elementos visuais.

O minimalismo estético do filme contrasta com figurinos ricos em detalhes, combinações e excessos, especialmente nas cenas de exposição e desfiles. É como se o ambiente ao redor se esvaziasse para concentrar a atenção do espectador nas modelos; ainda assim, os espaços continuam bem fortes, com seus neons, flashes e sombras densas. O mundo da moda e o mundo comum aparecem como realidades distintas e isoladas. Em diversos momentos, o minimalismo aliado às cores intensas transforma esses cenários em ambientes opressivos e sufocantes para aqueles que não pertencem a esse meio. A protagonista Jesse, interpretada por Elle Fanning, evidencia essa tensão desde os primeiros minutos: cercada por olhares julgadores, ela se revela deslocada, mesmo desejando profundamente fazer parte daquele universo.

O ritmo, em certos momentos, rompe esse lado mais cadenciado de forma que, às vezes, soa acertada, mas, em outras, não transmite a ideia com a mesma eficiência, como nas subtramas envolvendo os desentendimentos com o gerente do motel onde ela está hospedada (interpretado por Keanu Reeves).

Ao se aprofundar ainda mais nas questões sobre aparências, o filme se torna mais sombrio quando amplia o tema dos corpos. A moda também trata dos corpos que representam determinados padrões de beleza. Nesse aspecto, surge o melhor elemento do filme: a dúvida em relação ao que Jesse representa naquele universo. Mesmo que ela pareça não se encaixar no mundo das passarelas devido a sua postura, reconhece seu próprio potencial por causa da beleza — afinal, é isso que chama a atenção das colegas e dos estilistas. O filme constrói de maneira convincente uma relação parasitária com esse culto à beleza e ao corpo, ao questionar se a personagem principal é uma vítima ou um ícone narcisista, já que sua autoafirmação e ego a colocam em constante perigo.

Sua autoimportância, ao mesmo tempo que a distingue das outras e a transforma em destaque, também a sabota. Ela passa a sentir essa fragilidade de formas que a conduzem ao desamparo, mas não consegue se humilhar o suficiente, pois se enxerga com certa superioridade — ainda que isso a leve por um caminho destrutivo. A supervalorização do físico vai esvaziando a identidade das demais modelos, que se reduzem apenas à aparência: ser bonita e atraente. Trata-se de uma superfície moldada por um vazio construído por essa cultura, que conduz essas obsessões a direções cada vez mais mórbidas, como visto em certos momentos do longa.

O filme, como um todo, funciona (com algumas ressalvas) na maneira como abstrai seu tema para mostrar que a busca pela perfeição (ou por ser a própria perfeição) pode ser tão sedutora quanto delirante e predatória. Seu grande trunfo está na composição visual minimalista, marcada por cores fortes, que ao mesmo tempo preenche e domina as personagens. Essas obsessões ecoam como um assombro até no cotidiano das modelos, transformando-as de forma evidente, a ponto de não se saber mais quem é predador e quem é presa.