Estava passeando pelo TikTok no outro dia quando me deparei com um video sobre moda “medieval y2k” — uma tendência da virada do milênio de misturar elementos entendidos como medievais em roupas do dia a dia (que está novamente em voga). Entre as referências do vídeo estava a querida Shannyn Sossamon e seus looks anacrônicos do filme Coração de Cavaleiro, criado em um período onde no zeitgeist estavam filmes de época que misturavam músicas, expressões, figurinos e outras referências à contemporaneidade. Moulin Rouge (Luhrmann, 2001), Shrek (Adamson, Jenson, 2001) e Uma Garota Encantada (O’Haver, 2004) são alguns exemplos.
Pela cena de abertura, em que uma plateia de uma justa canta We Will Rock You, do Queen, como se estivesse em um estádio de futebol, o filme já se distancia de um drama histórico. Com uma mistura de gêneros que vai da comédia romântica ao filme de esporte, uma aventura de jornada do herói com elementos musicais, o longa utiliza elementos históricos fidedignos e de narrativas da época para estabelecer o pilar em que este universo está inserido.
Após a trágica morte de Sir Hector por desinteria no meio de um torneio, William (Heath Ledger) assume seu posto para terminar a partida e receber o prêmio. O que seria uma saída desesperada para não morrer de fome , torna-se uma oportunidade de trabalho e glória para ele e seus amigos, Roland (Mark Addy) e Wat (Alan Tudyk). No meio do caminho eles esbarram em um pelado Geoffrey Chaucer (Paul Bettany) — o escritor real dos Contos de Canterbury, cuja primeira história se chama justamente “A Knight’s Tale”, o nome do filme em inglês — que irá ajudá-los a forjar o título de nobreza necessário para competir nos torneios e assim criar a identidade Sir Ulrich Von Lichenstein. Além disso também se junta ao grupo uma ferreira, Kate (Laura Fraser), que, para se provar entre seus colegas de profissão, cria uma armadura mais leve e resistente para William. Com o grupo completo, o nosso herói pode finalmente buscar o seu sonho de ser um nobre cavaleiro.
Um dos aspectos mais interessantes e cativantes do filme é a dinâmica entre esses personagens. O protagonista é um jovem enjoadinho e impulsivo, apesar de corajoso e talentoso, que não conseguiria ser bem sucedido sozinho; então, cada um desempenha uma função em relação a ele, mas também tem questões para serem desenvolvidas ao longo da trama. Roland é o líder, costureiro e a voz da razão; Wat é fiel, mas se mete em confusões por não conseguir conter a raiva; Chaucer é letrado e articulado, porém é viciado em apostas; e Kate ainda passa pelo luto da perda do esposo e pela dificuldade de se afirmar em uma profissão dominada por homens. Interessante perceber também que Kate, em nenhum momento, precisa abdicar de sua feminilidade para ser completamente aceita pelo grupo.
Além das amizades, William também se apaixona pela bela Jocelyn (Shannyn Sossamon), e disputa a atenção da moça com o rival nas justas, Conde Adhemar (Rufus Sewell). Enquanto o nobre é um típico vilão, estoico e ameaçador, a jovem princesa foge do que se espera de uma mocinha, sendo esperta, moderna e aventureira, além de delicada e compreensiva. Apesar de por vezes cair em um discurso feminista “girl boss”, hoje já saturado, ela é decidida e sarcástica, o que funciona como um bom contraponto à imaturidade do protagonista. Ele, por sua vez, proporciona uma leveza despojada à relação entre os dois, por ter sido criado fora das restrições da nobreza.
Além de ter o elenco jovem extremamente carismático à disposição, o diretor e roteirista Brian Helgeland também se preocupou em construir uma encenação que mostrasse o ambiente tanto quanto os rostos dos atores. Assim, ele abusa de planos abertos nos duelos com cavalos, sempre enfatizando a animação do público; e também em momentos mais íntimos, onde vários dos diálogos mostram os amigos ou o casal enquadrados ao mesmo tempo. Em uma cena em que William e Jocelyn discutem, dentro de uma igreja, o espaço monumental é enfatizado por um traveling contínuo com plano super aberto, que observa os personagens por de trás das colunas de pedra. A direção também é criativa ao acompanhar os cavaleiros nos embates, colocando a camera no cangote do sujeito, o que foi feito com uma pessoa pendurada em um guindaste.
As canções de rock setentistas, que costumam tocar em estádios, dão o clima de torcida para as empreitadas da equipe e complementam os acontecimentos em cena — às vezes de forma literal, como quando o grupo retorna à à Inglaterra e toca The Boys Are Back in Town (Thin Lizzy). O anacronismo das músicas funciona bastante em conjunto com outros elementos, como uma “Ola” da torcida, que a trilha sonora de orquestra convencional (que também seria anacrônica, visto que usa instrumentos não existiam na era medieval) não proporcionaria.
Nesta ideia de unir épocas diferentes também estão os figurinos de Jocelyn, que motivaram este texto. Eles misturam elementos medievais (como no caimento, decote, mangas) com transparências, tecidos leves e esvoaçantes em cores chamativas, chapéus de tela, penteados espichados e mechas coloridas no cabelo. Vários itens da moda da virada do milênio, que atestam não só que ela é moderna e fashionista, como também parte da elite. Isso contrasta com Kate, que, apesar de também não abaixar a cabeça pros homens, é mais comedida, até por sua posição social, e usa roupas que destoam menos do período histórico.
Esses elementos sonoros e visuais, incluindo as cores presentes no design de produção, ressaltam o tom vibrante da história e dos temas de amizade e coletividade. É um filme que parece mais contemporâneo nas discussões sobre classes sociais e papéis de gênero, bem como companheirismo e solidariedade, do que alguns mais recentes. Além de tudo, é um filme para deixar o coração quentinho e uma oportunidade de prestigiar o magnífico e saudoso Heath Ledger em seu primeiro papel como protagonista.