O que mais me interessou em Contos do Dia das Bruxas foi, sem dúvida alguma, a percepção dicotômica que o filme adota em relação ao Halloween. Parece haver, aqui, uma compreensão muito clara do que esse feriado significa, qual a sua origem e qual é a relação que a população (majoritariamente norte-americana) possui com ele nos últimos anos. Digo isso porque o Halloween, desde sempre, possui uma ligação forte com o sobrenatural e o horror (ele nasceu como um festival realizado em uma época do ano em que “a fronteira entre os vivos e os mortos ficava mais próxima”). É um dia, portanto, que é sobrenatural desde que foi concebido.
Porém, os anos foram passando e essa ideia de superstição foi sendo, aos poucos, esquecida. Nos Estados Unidos, onde ele encontra mais adesão e é tratado como um dia mais importante do que nos outros países, o tratamento que se tem com o Halloween já não implica ocultismo, bruxaria, feitiçaria ou qualquer coisa que flerte com um ideário fantasioso. Pelo contrário: o Dia das Bruxas virou um feriado como todos os outros, com o diferencial de existirem fantasias e enfeites de fantasmas por todos os lados. Esse dia já não tem mais relação com o mundo dos mortos como teve em seu surgimento; o Halloween é visto, atualmente, com olhos banais.
E é justamente sobre isso que esse filme se propõe a debater. Não é sobre como esse novo olhar é ruim para o espírito originário do Dia das Bruxas, mas sobre como a percepção cotidiana do Halloween coexiste com a sua percepção sobrenatural. Encontrando exemplares de gênero para ilustrar essa situação (terror e comédia compartilhando a tela tal qual sobrenatural e cotidiano compartilham o mundo real), Contos do Dia das Bruxas tenta conciliar essas duas esferas do Halloween e condensá-las em uma única obra. Tenta.
O problema é que, enquanto tudo isso é dito a nós no campo textual, nada se revela no campo formal. A própria encenação do filme não permite que esses comentários sejam levados a algum lugar pra além da narrativa.
A comédia é quase inexistente justamente pela falta de aspectos fílmicos que atestem o humor – aliás, só consigo me lembrar de uma cena realmente engraçada, que é aquela em que um dos personagens está matando uma criança em seu quintal e seu filho fica interrompendo-o o tempo todo. Enquanto esse crime está sendo cometido, a trilha sonora ganha contornos mais sórdidos e cria um ambiente de mistério, de terror; o plano evidencia a maldade presente no ato do assassinato etc. Porém, assim que há um corte para a casa desse personagem (e, consequentemente, também para seu filho pedindo a sua atenção), toda essa sugestão do horror vai embora. É um caso em que o cotidiano entra em contato com o sobrenatural, mas também onde o terror se encontra com a comédia. A encenação faz com que um assassino, de repente, se torne um pai. O problema é que isso não acontece em mais nenhuma parte do filme.
Na esfera do terror, as coisas são ainda piores. Aqui, a sua ineficácia é inteiramente formal. Pelo despreparo e descuido com o que se filmar, como se filmar e, acima de tudo, como se criar sentido através da imagem, todo o horror daqui morre antes mesmo de se concretizar – acho que o exemplo mais gritante daqui é a cena onde uma mulher, sangrando por ter sido atacada, anda pela rua da cidade e ninguém nota que ela está quase morrendo (um aceno um tanto quanto inesperado à Hard Target, de John Woo, aliás). Em um primeiro plano, nós somos apresentados ao seu olhar – ou seja, à rua e às pessoas ao seu redor.
Nós vemos o que ela vê. Ela está visivelmente perplexa, pois ninguém dali percebe que o sangue que sai dela é real (mais uma vez, cotidiano x sobrenatural). Ela sente alguém se aproximando atrás dela. O plano que se vê em seguida mostra o seu rosto de frente e o assassino nas suas costas. O que me faz acreditar que essa cena esvazia todo o terror que vinha se construindo é justamente que esse segundo plano não sugere nada que passe a sensação de medo. A figura do assassino é tratada como qualquer outra. Não há esforço para se filmar essa figura como ameaçadora ou perigosa, de fato. E isso se segue, como eu falei, pelo filme todo. Ideias boas sendo filmadas do pior jeito possível.
Como cinéfilo (e um quase crítico), eu reconheço que grande parte do cinema está na sua mise-en-scène e no que ela pode nos dizer para além do que está sendo posto pela trama, roteiro, etc. Logo, creio que um filme onde toda a estrutura formal é formulaica e inexperiente (e que, por isso, tira todo o peso do que a parte temática se propõe a discutir) tem muito pouco a nos dizer, pela falta de ancoramento estético na imagem.