Assisti a apenas um filme de Jeff Nichols antes desse último: o honesto drama romântico e racial Loving, de 2016, mas basta ver cenas isoladas ou saber poucas informações de seus outros filmes para perceber como o cineasta parece se inspirar em narrativas que a Nova Hollywood trabalharia em seu tempo (anos 1960 e 1970). Seu novo Clube dos Vândalos é prova cabal disso, compondo a história de anos do clube de motoqueiros Vandals MC a partir de uma pesquisa jornalística; história essa que se inicia como uma romantização daquele recorte da realidade e que, com o passar do tempo, torna-se uma trama decadente que estraçalha por completo o idealismo de outrora.

Superficialmente pela sinopse, é muito fácil relacionar a trama ao clássico hippie Sem Destino (Hopper, 1969), mas, apesar dessa narrativa mais cínica e lúgubre típica daquele período, é bem perceptível uma inspiração naquela estrutura de vai-e-volta com voice-over dos filmes de crime de Martin Scorsese que saíram ali pelos anos 1990 (em especial Os Bons Companheiros, de 1990). Ao mostrar o jornalista vivido por Mike Faist entrevistando especialmente a personagem de Jodie Comer, temos um relato de eventos descrito e encenado de forma subjetiva, a visão de uma mulher de fora sobre aquele grupo desregrado de homens. Isso pesa e muito para toda a construção dramática da obra, que começa bastante convencional (e até meio apática) e fica cada vez mais melancólica e dura na construção de sua desilusão. A personagem de Comer, nessa conjuntura, é a mais afetada e vitimada pelas más escolhas do homem que serve de catalisador dessa mudança, o Johnny de Tom Hardy.

Servindo como a personificação da decadência dos Vandals, o líder do clube Johnny baseia sua personalidade em Marlon Brando e sua idealização utópica do clube vai perdendo o controle cada vez mais, especialmente com a ascensão das drogas e insatisfação social dos anos 1960. É como se Nichols usasse do clube/gangue como uma metonímia para os próprios EUA ao redor – ou até mesmo para o cinema americano, do idealismo ao cinismo.

Já o personagem de Austin Butler seria uma espécie de reator de tudo o que gira ao seu redor, sempre tomando porrada e revidando, sempre retornando ao ser posto “de lado”. Talvez seja o papel de menos personalidade do filme justamente por “ir mais na onda” ao invés de tomar suas próprias decisões. Seu personagem Benny surge como uma espécie de arquétipo romântico, um James Dean da estrada, e seu romance com a Kathy de Comer se inicia de forma até relativamente cafona, enquanto a mudança dos tempos vai aos poucos invadindo aquele paraíso de liberdade irresponsável. E nesse sentido, é até interessante essa estrutura “scorsesiana”, já que desde o início vemos Kathy como uma mulher mais cansada e sem a presença constante de Benny enquanto vemos seu romance florescer de forma idílica no passado, em outro tempo.

Populado por vários personagens inusitados, que compõem um mosaico daquela realidade, Clube dos Vândalos ainda conclui com um tom melancólico de nostalgia. O desfecho de Benny e Kathy não é trágico, mas a mudança de sua realidade soa tão radical que a felicidade do casal no fim soa, no mínimo, agridoce. E com as fotos reais da matéria de Danny Lyon (Faist) fechando o projeto, fica ainda mais claro o quão triste é o fato daquele mundo dos Vandals ter se transformado em um caos social inevitável.