Cinema Negro: Sete Filmes Dirigidos por Diretores Pretos
Pessoas negras fazem filmes praticamente desde o que chamamos de primeiro cinema, quando a linguagem cinematográfica ainda passava pelos seus primeiros experimentos. Porém, era uma realidade de extrema segregação nas Américas e de um processo colonial de silenciamento no continente africano.
William D. Foster, com seu estúdio inteiramente negro Foster Photoplay Company, produziu e dirigiu o curta The Railroad Porter (1912), entre outras obras focadas na comédia física. Na época, tais filmes eram feitos pela comunidade negra e para a comunidade negra, gerando o termo “race films“ (filmes de raça). Esse percurso atingiu outro nível com o cineasta Oscar Micheaux. Seu longa de 1920, Within Our Gates, foi divisor de águas ao abordar, de maneira crítica, as leis de segregação e a ascensão da Ku Klux Klan.
Com o lento mas progressivo enfraquecimento dessas leis e com a emancipação colonial de várias nações africanas, o cinema negro começou a se desenvolver em meados do século XX, ainda no circuito independente e com o quádruplo das dificuldades de produção e distribuição. A seguir, separamos sete filmes dirigidos por homens negros ao longo da história.

Mandabi
Uma família senegalesa recebe uma carta com dinheiro enviada por um parente em Paris e precisa lidar com o peso que essa quantia traz e com a ganância e as atitudes daqueles que vivem ao seu redor. O verdadeiro protagonista não é nenhum membro da família, é o dinheiro. Tudo gira ao redor dele e desorganiza-se por sua presença. A vida cotidiana — marcada pela fome e pela precariedade — passa a gravitar em torno dessa promessa econômica. Um capital que, antes mesmo de circular, contamina o ambiente. O dinheiro expõe cada fissura social e cada desespero íntimo. A comunidade se movimenta como um organismo faminto, atraído pelo brilho distante de Paris.

Super Fly
Esta é uma história sobre tráfico de cocaína que não vilaniza as drogas ou os traficantes. O protagonista, Priest, é um homem descolado e estiloso (como diz o título do filme), que luta karatê e vive uma vida de luxo graças ao tráfico. Contudo, ele quer se aposentar dessa vida e, com esse fim, arquiteta um esquema para roubar a mercadoria do grupo rival e lucrar com uma última venda. Como em todo filme de máfia, há complicações, pancadaria e morte; tudo aqui filmado nas ruas de Nova York e embalado pela música funk dos anos 1970. Os vilões são a polícia corrupta, o homem branco e as instituições que forçam as pessoas negras à marginalidade.

Blacula, o Vampiro Negro
Um príncipe africano do século XVIII é condenado à eternidade durante uma passagem pela Transilvânia. Dois séculos depois, ele aparece em Los Angeles. Lá encontra Tina, que ele acredita ser a reencarnação de seu antigo amor. Blacula é o delírio romântico de um corpo deslocado, que atravessa séculos e persegue a miragem de uma memória que insiste em sobreviver. Uma história trágica sobre um anti-herói condenado pela própria natureza. No fim, não é sobre o grotesco, mas sobre a solidão e a tentativa desesperada de escapar da perseguição de um implacável investigador enquanto revive um amor impossível, preso em um ciclo de desejo que atravessa séculos.

O Terrível Mister T
Mister T, um detetive particular que resolve problemas em seu bairro, é contratado por dois gângsteres para investigar uma série de roubos em suas operações de jogos de azar. Porém, não passa de uma armadilha para incriminá-lo por um assassinato que não cometeu, obrigando-o a enfrentar a perseguição tanto da polícia quanto dos criminosos para provar sua inocência e conquistar sua vingança. Outro grande marco do blaxploitation dos anos 1970, movimento que dava empoderamento aos homens negros, no qual o ator Robert Hooks encarna com imponência esse arquétipo do homem durão, acompanhado pela contribuição excepcional de Marvin Gaye na trilha sonora.

Febre da Selva
Muito antes de Corra! (Peele, 2017), Spike Lee já havia dado sua contribuição para o tema das relações interraciais no cinema. Flipper, um arquiteto negro do Harlem, e Angie, sua secretária ítalo-americana, começam um romance extraconjugal que passa a incomodar seus amigos e família. A expressão “jungle fever” — que dá título ao longa — é uma gíria racista que define a fetichização sexual de pessoas brancas por pessoas pretas. O diretor, como de costume, levanta essa bola para gerar a provocação sobre a verdadeira natureza desse relacionamento, de acordo com o racismo estrutural do contexto da Nova York dos anos 1990.

Temporada
Ao se mudar do interior para a cidade de Contagem, em Minas Gerais, Juliana começa a trabalhar como agente de saúde, fiscalizando o saneamento público da região. Enquanto espera seu marido, com quem passa por problemas conjugais, ela começa a conhecer novas pessoas e vai ficando cada vez mais independente. André Novais Oliveira cria, com sua câmera e sua abordagem naturalista, uma janela para a realidade de sua protagonista. Para esse fim, conta com a atuação de Grace Passô, brilhante por sua total despretensão. Juliana é uma pessoa como qualquer outra, sem ter qualquer consciência de seu protagonismo, tanto para nós quanto para sua realidade diegética.

Kasa Branca
O cinema brasileiro atingiu seu ápice comercial retratando a periferia como um antro de violência, corrupção e tragédia nos anos 2000. Luciano Vidigal, como cria das favelas cariocas, oferece uma visão diferente com seu Kasa Branca. O filme trata das relações interpessoais que giram em torno de três amigos, no processo de cuidar da avó de um deles em estado terminal de Alzheimer. O diretor constrói um senso comunitário fortíssimo sem ignorar problemas como a milícia e o abuso policial. Eles só não são centro narrativo. Há um interesse muito maior pelos afetos e a periferia torna-se bela sob o olhar da resistência social e emocional a partir do coletivo.