Permitam-me começar esse texto com um disclaimer! Cidade dos Sonhos, do recém-falecido David Lynch, é um dos filmes formadores da minha cinefilia. Nos meus 15 anos de idade, foi esse longa um dos maiores responsáveis por mudar completamente minha visão sobre cinema e, até mesmo, sobre a arte de modo geral. E por uns dez anos, eu nunca mais revisitei este filme, que permaneceu como uma das minhas obras favoritas até hoje, intocada pela mudança dos meus pensamentos sobre a sétima arte e a crítica de cinema. O mais fascinante dessa minha segunda passagem pelo filme, agora em uma baita restauração em 4K, foi perceber não só como ele estava fresco na minha memória, mas também como minha opinião em praticamente nada mudou em uma década de estudos e repertório ampliado.

E por que eu preciso comentar sobre tudo isso? Justamente porque não quero que esse texto seja meu manifesto definitivo sobre um dos filmes mais importantes da minha formação. Na verdade, nem sei se consigo escrever um texto que consiga abarcar toda a estranheza encantadora e aterradora que atravessou meu olhar na adolescência e agora, já na fase adulta. Afinal, a magnum opus de Lynch é um amálgama de ideias intimistas e generalistas posicionadas em uma narrativa surrealista que funciona como um fluxo do inconsciente.

Em um sonho, não sabemos como a história começa, nem como ela termina. Não temos uma exata cronologia, nem muitas explicações lógicas sobre o que acaba aparecendo nessa viagem onírica. Aquilo que “vemos” são recortes de memórias e experiências em uma colagem do nosso próprio inconsciente. E se Lynch já havia trabalhado com isso em projetos anteriores, aqui é onde ele consegue alcançar uma maior ironia com essa abordagem. Afinal, basta perceber o título em português do longa — particularmente acho melhor que o original — que logo fica bem claro como Cidade dos Sonhos é um grande deboche a Hollywood e ao funcionamento plástico e falso da indústria que muitas vezes toliu seu próprio pulso criativo. É só pesquisar o que o cineasta pensa sobre sua experiência ao conduzir Duna (1984).

Percebem que já entro no quarto parágrafo e ainda não citei nada da premissa nem das personagens principais? Pois é, assim como a cena do Club Silencio deixa mais do que claro em suas performances musicais, “no hay banda”. A banda não existe e uma bela canção jamais é, de fato, cantada. Tudo é extremamente ilusório e talvez a maior farsa aqui seja o sonho de Betty (Naomi Watts), uma personagem que parece ter saído diretamente da Janet Gaynor de Nasce uma Estrela (Wellman, 1937), em busca de seu sonho como grande estrela de cinema. Mas quem Watts realmente interpreta? A sonhadora Betty ou a renegada Diane, que afunda em sua própria amargura e em seus próprios vícios? Quem a belíssima Laura Harring interpreta? A amnésica Rita, sobrevivente de uma tentativa de assassinato digna de um filme noir, ou a “privilegiada” Camilla? Seria Adam (Justin Theroux) um reflexo de um Lynch frustrado com a indústria? E qual é a do homem que tem sonhos com um mendigo assustador? Quem é o tal vaqueiro misterioso?

São perguntas que com certeza pipocam na nossa mente depois de 2h30 experienciando a viagem de Lynch por Hollywood Hills, cujas respostas sinceramente não importam tanto. O diretor era grande combatente contra a ideia da interpretação e a racionalização de tudo que é mostrado na tela do cinema. Seus filmes não têm exatamente uma lógica interna. Dá até para teorizar a respeito, mas é um exercício um pouco ingrato, já que a resposta certa nunca vai existir. Mas são justamente as perguntas por si só que deixam sua obra tão fascinante. Nada tem significado, mas tudo tem um sentido. Por exemplo, o romance entre Betty e Rita, ou entre Diane e Camilla, é um romance de fato? Não seria essa relação das duas puramente simbólica, como uma representação da dinâmica entre ambas na indústria?

Além disso, Lynch também parece referenciar vários dos subgêneros e tendências que construíram Hollywood, especialmente em sua Era de Ouro. O suspense noir com certo erotismo na investigação das duas protagonistas, o faroeste na figura do vaqueiro enigmático e o filme de crime com a presença constante da Máfia no núcleo de Adam que, por sua vez, representa o cinema sobre o fazer cinematográfico. Mas nada disso é gratuito ou puro fan service para cinéfilo besta. Tudo faz parte desse mosaico satiricamente sombrio sobre a realidade farsesca na qual o cinema americano se baseou por tanto tempo.

No fim de Cidade dos Sonhos, o que resta é o “silencio”. Vidas são destruídas, o crime e a traição imperam, a dúvida é onipresente, mas a indústria continua em sua música sem banda, em sua canção requentada. O sonho é possivelmente apenas uma realidade paralela que só o cinema é capaz de falsificar, produzir e vender, formando um círculo predatório da mais pura desilusão.