A narrativa ficcional de Betânia é mais um ponto de partida para fazer um esforço documental radiográfico da vida naquela região que leva o nome do filme sem se assumir como tal, mas é justamente esse borramento de fronteiras e fricções que funciona de maneira muito interessante, pois Botta encontra em sua estrutura coral de personagens diferentes tipos de âncoras para mostrar múltiplos aspectos de vivências sem soar como algo que, no documentário, poderia se tornar mera colagem.
Isso cria um filme panorâmico riquíssimo ao mostrar um cenário estrutural completo, que passa por economia, crenças, rituais culturais, lazer e festas, paisagens e ecologismo, materialismo, educação e tratos familiares, tudo realizado com precisão por uma montagem interessada em construir uma estrutura mais livre, pautada num ritmo quase musical, e que encontra na mise-en-scène de Botta um olhar lírico para as pequenas atividades cotidianas e ritualísticas.
Até por isso, nos momentos em que o roteiro tenta certos aprofundamentos narrativos e desenvolver a cruzada de alguns personagens, nem sempre é bem-sucedido, caindo em didatismos (a parte do dízimo; o preconceito LGBTQIA+; a sala de aula falando de lixo..) e criando dramatizações exageradas que não combinam com o resto do filme (como toda a jornada em que um dos personagens se perde no lençol e o confronto com a formatura do filho). Ironicamente, o didatismo que enfraquece certas passagens é o reverso da própria ambição que torna o filme tão rico, sentindo a necessidade de sublinhar o que a mise-en-scène já dizia melhor sozinha. Quando confia no acúmulo de panoramas multiplurais em vez da explicação, porém, Betânia encontra seu registro mais verdadeiro.
No geral, a direção de Botta parece compreender que a riqueza daquele universo está menos em transformar suas personagens em veículos de teses do que em permitir que elas existam como texturas dentro de um tecido social, cultural e material que Betânia vai progressivamente revelando conforme passeia livremente. Quando se entrega a esse registro, o resultado é uma experiência de grande riqueza antropológica sem abandonar a sensibilidade ficcional, em que a paisagem, os corpos, os rituais e os pequenos gestos cotidianos constroem uma compreensão do lugar que seria difícil alcançar por uma narrativa mais convencional ou 100% documental. Os tropeços dramáticos não anulam a força de Betânia, mas deixam evidente que o filme é mais interessante quando deixa de tentar conduzir seu universo e simplesmente permite que ele se revele.