O cinema do Tim Burton é conhecido por ser esteticamente bem sofisticado e sombrio, com alguns de seus filmes tendo um visual de terror gótico bem marcante. Por isso, faz sentido que um personagem como o Batman seja um dos mais vantajosos para explorar esses elementos em um longa cheio de personalidade e estilo. A Gotham de Burton é uma cidade que mistura elementos góticos com arquitetura de metrópole – com becos escuros, arranha-céus, névoa e estátuas soturnas para criar um cenário bem expressionista que remetem aos clássicos do cinema mudo alemão – o que constrói cidade tão grandiosa e teatral quanto decadente e melancólica. Essa característica é ressaltada de forma épica pela trilha sonora de Danny Elfman, que alterna entre um tom mais grandioso e um contemplativo, como no icônico tema de abertura e nos momentos de suspense que vão para sons mais minimalistas e cautelosos, ressaltando o senso de perigo. Ademais, a forma como as ruas, os becos e outras locações são filmadas também remetem bastante ao cinema noir: pela maneira como são iluminados e pelas tramas policiais mais obscuras, combinadas à cidade cuja aparência parece fantasiosa por sua sofisticação. Essa característica é tão marcante que viria a influenciar a estética, de forma mais moderna, do filme do Batman de 2022 dirigido por Matt Reeves.
Além do visual gótico da cidade, o Batman de Michael Keaton tem um ótimo design de uniforme – que tornou-se icônico pelo destaque escuro em contraste com a roupa colorida de outros super heróis – e funciona os momentos em que precisa ser mais performático e intimidador, como na icônica cena em que fala “eu sou o Batman”. Porém, nas cenas de ação, o figurino é comprometido por conta da imobilidade e por deixar os movimentos do personagem travados em certos instantes, rendendo alguns momentos risíveis que destoam do tom mais sério do filme.
O longa também tem protagonistas muito carismáticos, que prendem a atenção do público, sendo Jack Nicholson talvez o maior destaque positivo do filme, no papel do Coringa. A caracterização do vilão se destaca por um elemento ausente em muitos dos filmes do Batman: o lado palhaço dele. Ele comete crimes de forma brincalhona e até infantil em certos momentos. O vilão claramente se diverte fazendo o que faz e visualmente está cercado de cores vibrantes e bem contrastadas, além de músicas mais festivas – até por conta da contribuição sonora de Prince, que trouxe um lado mais funky para o filme e que funciona muito bem. Isso tudo ressalta o lado galhofa do personagem, presente em outras mídias, como nas animações e nos quadrinhos.
Já o aspecto investigativo do filme, que também volta ao noir, é focado no papel da imprensa, que atua como uma espécie de guia para espectador ao indagar sobre o que acontece na cidade e ir atrás para descobrir. Nesse momento entra Vicki Vale, personagem da estonteante Kim Basinger, que executa bem esse papel da jornalista curiosa para descobrir mais informações sobre o Batman, que até então era uma lenda. Por isso, ela se aproxima de Bruce Wayne, mas a subtrama que a coloca como par romântico é forçada e não tem um desenvolvimento interessante na relação dos dois.
Por outro lado, mais forçado do que esse romance é o plot twist envolvendo o passado de Bruce, que lembra um pouco o de Homem Aranha 3 (2007) envolvendo o vilão Homem-Areia. É uma coincidência jogada de qualquer maneira na narrativa e serve apenas pra criar uma jornada de vingança contra o Coringa e sem muito o que reforçar, já que eles são inimigos desde a primeira parte da trama.
Como um todo, é um filme que tem bastante êxito na sua composição imagética e que se destaca entre as outras versões do Batman (com elenco sendo o maior destaque) mas que comete alguns vacilos na sua abordagem narrativa.