Esta pequena onda de filmes provocativos que descendem do novo extremismo francês — um movimento cinematográfico pouco conhecido do início dos anos 2000, que ficou famoso por seus filmes com temáticas violadoras e violentas —, tem tomado grande parte do cenário do cinema dos últimos anos. Posso citar como esses filmes mais recentes apresentam muito mais uma proposta de choque pelo choque do que uma ideia realmente focada na narrativa. Indo nessa corrente como base deste texto, posso dizer que Halina Reijn até tenta apresentar alguma ideia em meio ao amontoado de sexo provocativo e polêmico, perdido em um discurso sexual moderno, que beira a misoginia.
Esse filme me lembrou vagamente o trabalho de Catherine Breillat e suas obras que abordam temas sexuais levados ao extremo (como diz o novo extremismo francês), como por exemplo seu longa Romance X, que lida com relações sexuais controversas e altamente viscerais do ponto de vista feminino. Sua personagem principal explora outras formas de relações, muitas delas indo a níveis inimagináveis de perversão e masoquismo. Babygirl possui uma linha narrativa muito parecida. A personagem de Nicole Kidman adentra uma relação adúltera com seu estagiário, que se baseia em uma submissão voluntária por parte dela para com ele — o que serve como ponto de partida para falar sobre certos fetiches e desejos sexuais reprimidos, que podem ser vistos como condenáveis por alguns.
Diferentemente de Breillat, que assume o teor pesado de sua história, Reijn adere a uma atmosfera sensual e erótica, somada a uma tensão entre seus protagonistas, que diretamente atinge a vida familiar de Romy (Nicole Kidman), criando um certo suspense e temor em relação a Samuel (Harris Dickinson). Porém, esse caso amoroso não possui nenhuma finalidade dentro da narrativa, servindo apenas como um fetichismo que parece partir da própria diretora, aparentemente para reforçar um ideal sexual — que parece até se alinhar a um pensamento moderno de quebra de padrões.
Uma pena (ou talvez não) que esse suposto discurso acerca da liberdade sexual feminina não recebe nenhum tipo de atenção da diretora em seu desenvolvimento, tornando-se apenas uma justificativa mal inserida para todas aquelas sequencias que envolvem relações sexuais submissas. Halina Reijn quer falar sobre sexo, mas acaba só realizando um filme erótico que não oferece nada além de cenas que até poderiam ser, mas não são, nem mesmo luxuriosas.
Mesmo que Nicole Kidman seja conhecida por sua sensualidade, Romy soa como uma personagem escrita por uma adolescente em uma fanfic: a imagem da mulher poderosa nos meios empresariais, que possui desejos sombrios. Essa foi a dualidade que a diretora buscou, mas acertou em uma mulher idealizada sexualmente por uma figura masculina, essa sendo o personagem de Harris Dickinson. Samuel também parece um personagem criado por uma fanfiqueira: misterioso, alto e imponente — características essas que são mostradas em alguns diálogos tenebrosos, que não agregam à ideia, só deixam as cenas eróticas levemente vergonhosas.
O desejo sexual e a corporalidade alheia acompanham a história do cinema, junto de temáticas sexuais que podem ser polêmicas. Acho que é isso que Reijn queria: chocar. Mas só conseguiu criar uma história que reflete certa frustração sexual de uma mulher por um olhar masculino.