O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS!!!
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, […] nada seria. […] Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.”
Quem conhece a filmografia do sueco Ingmar Bergman e pesquisa sua vida pessoal sabe sobre seu relacionamento difícil com o pai Erik, um pastor luterano conservador e figura importante da monarquia sueca que, pessoalmente, era rígido e beirava o abusivo. Essa relação paterna conturbada fez com que Bergman, ainda criança, perdesse sua fé, algo que foi muito explorado pelo próprio durante sua extensa carreira no cinema, no teatro e, depois, na TV. Oras, sua obra mais reconhecida iconograficamente falando foca justamente em um cruzado perdendo sua fé em Deus enquanto é cobrado pela Morte (tem texto meu sobre O Sétimo Selo aqui na Revista).
Justamente foi nesse período, entre o fim dos anos 1950 e início dos 1960, que Bergman entrou em sua fase mais existencial diante do silêncio divino, de sua falta de fé e da incerteza sobre a morte. Os filmes derradeiros dessa sequência são conhecidos – contra a vontade do próprio cineasta – como a Trilogia do Silêncio de Deus, que iniciou em 1961 com Através de um Espelho. Nesta obra, conhecemos o escritor David (Gunnar Björnstrand), seus filhos Karin (Harriet Andersson) e Minus (Lars Passgård) e seu genro Martin (Max von Sydow) vivendo um feriado em família na ilha de Fårö, aparentemente felizes nadando no mar. Logo, somos surpreendidos por algumas informações. Karin acaba de sair de um hospício após ser diagnosticada com esquizofrenia incurável; David é um pai ausente que vive em longas viagens de trabalho e passa por um momento de bloqueio criativo; Minus sente falta de uma figura familiar estando apenas com dezessete anos de idade; e Martin, como médico, tenta cuidar de sua esposa enquanto vive sexualmente frustrado por suas recusas.
1. DESAMOR
Bergman usa de um cenário idílico, refém de uma iminente tempestade que se anuncia a cada nova cena, como palco para essa peça de desestruturação familiar. Até mesmo de forma literal, já que a má relação de David com os filhos é escancarada com uma pequena peça de teatro encenada por eles e escrita por Minus que, assim como Bergman em seus filmes, transparece um confronto contra sua figura paterna, um desabafo velado em forma de arte. Karin, por outro lado, recorre ao seu suposto contato com o divino no quarto vazio do segundo andar da casa, em que visões e vozes a avisam da chegada de Deus enquanto esse contato parece excitá-la sexualmente por repor aquilo que falta a sua vida cotidiana, longe dos afetos daqueles que lhe são caros. Ela não sabe, porém, de sua situação irreversível.
Bergman desenvolve seu drama familiar de forma quase teatral em superfície. Tudo aqui gira em torno de longos diálogos, momentos solitários, performances por vezes melodramáticas (o horror da “revelação divina” presenciada por Karin é marcante nesse sentido) e até mesmo os momentos que poderiam causar certo choque voyeurista são interrompidos por elipses que valorizam muito mais a implicitude sutil do ato que foi cometido – e sim, estou falando do aparente incesto entre os irmãos nos destroços de um navio naufragado no litoral da ilha.

Por sinal, esse é um ponto importante: as escolhas de locação do diretor para situar e posicionar seus personagens – algo que faria cada vez mais em seus filmes seguintes, em especial O Silêncio (1963) e Persona (1966) – são de suma importância simbólica. A ilha como ambiente isolado do resto do mundo e que evidencia ainda mais a distância emocional entre seus quatro habitantes; o casarão belo por fora e rústico e envelhecido por dentro, com o quarto de cima evidenciando um papel de parede que parece abrir portais para mundos sombrios com seus rasgos úmidos; o tal navio naufragado que funciona tanto como um abrigo para a tempestade quanto como palco para relações traumáticas; e, claro, o pequeno barco usado por Martin e David como uma sessão de terapia isolada entre ambos, isolando-os no oceano para reconhecerem suas posturas individualistas em relação a Karin e Minus. Não é à toa que o helicóptero que chega para levar Karin novamente para o hospital psiquiátrico no final é a única afetação externa de sua narrativa.
2. BUSCA PELO DIVINO
É nos momentos de maior fragilidade emocional e psicológica que procuramos por um sentido, por uma realidade maior do que aquilo que conhecemos na materialidade. Ao meu ver, a simplicidade formal de Através de um Espelho vem dessa ideia, de uma realidade um tanto quanto vazia e apática diante de relações insuficientes. Mas Bergman também não expõe nada que possa ser interpretado como metafísico. Talvez por sua falta de fé e para reafirmar a inexistência do divino ou para evidenciar o silêncio de Deus às súplicas da Humanidade, se é que Ele existe.
Porém, se tudo aqui caminha para um niilismo lúgubre, por que comecei esse texto com um trecho bíblico? Aqueles dizeres do apóstolo Paulo vêm do capítulo 13 do livro 1 Coríntios, uma carta para auxiliar os cristãos em Corinto que praticavam a doutrina de Deus de forma equivocada, gerando desunião e imoralidade. No capítulo supracitado, Paulo evidencia a importância do amor como o fim dos ensinamentos de Deus, superando profecias, sacrifícios e a própria fé isolada. O espelho citado pelo apóstolo é o mesmo que, simbolicamente, alcança o título dado ao filme de Bergman. É a superfície que barra a total compreensão humana sobre sua existência antes do reconhecimento do amor entre seus pares. O espelho gera ruídos visuais, ilusões, desconexão, consequentemente gerando má interpretação sobre os demais e sobre como os demais nos enxergam.

Através do espelho, Karin espera por uma ilusão de Deus gerada pela sua condição mental, David explora o estado de sua própria filha como inspiração para seus livros, Minus tenta afogar a solidão ao focar nos estudos e na escrita, e Martin esconde o diagnóstico de Karin para não ter que enfrentar uma realidade em que seu ofício não é o bastante e também convencer sua parceira a retornar às relações sexuais com ele. Cada um vive em sua própria gaiola espelhada, buscando Deus de suas próprias formas, gerando a mesma desunião e imoralidade dos coríntios. Não é à toa que Bergman, buscando escancarar a desconexão entre seus personagens, quase nunca filma suas interações de forma a mostrá-los se encarando. São poucos os momentos em que há uma interação face a face minimamente honesta, sem um repentino desvio de olhar. Na maior parte do tempo, os personagens interagem entre si olhando para direções diferentes, rumos distintos.
E é justamente por isso que o desfecho, mesmo tendo uma conclusão triste para Karin no momento em que ela entra em pânico ao ver a figura de uma aranha como um “Deus do sofrimento” (Bergman exploraria melhor esse símbolo no segundo filme da trilogia, Luz de Inverno), soa tão impactante. Ao ser questionado por Minus sobre a esperança na existência de Deus depois de tantos acontecimentos deprimentes, David responde que talvez Deus seja o amor em todas as suas formas, mesmo contraditórias. Ao lembrar de sua tentativa de suicídio impedida pelo “acaso” (que contara para Martin mais cedo naquele dia), afirma ao filho: “De repente, o vazio se transforma em abundância, e o desespero em vida. É como o adiamento de uma sentença de morte.” A visão de David, mesmo que esperançosa, segue melancólica. Mas essa não é a ideia final de Bergman.
A ideia final vem logo depois desse momento, quando Minus pergunta ao pai se o amor que Karin recebe de sua família pode ajudá-la em sua recuperação. Pela primeira vez, David encara seu filho com sinceridade, face a face, sem qualquer espelho, e diz: “Acredito que sim.” Como o acadêmico Frank Gado aponta em seu livro The Passion of Ingmar Bergman (1986), o olhar de espanto do filho que nunca recebeu qualquer demonstração de afeto sincero do pai se assemelha ao de um indivíduo que acaba de receber uma revelação divina, concluindo com a frase que pontua a ideia sobre Deus e amor de Ingmar Bergman: “Papai falou comigo!”
