Russell Mulcahy é um grande criador de atmosfera e, talvez, Atirador de Elite seja um dos filmes em que essa característica aparece de maneira mais radical, ao transformar praticamente toda a sua duração em uma noite chuvosa e trovejante dentro de um prédio abandonado, onde a ação parece existir em estado de espera antes de finalmente explodir. Há algo de muito particular na maneira como o diretor transforma aquela arquitetura inacabada em uma mise-en-scène que é um espaço mental, especialmente porque, nos momentos em que acompanhamos o segurança drogado que surge como ameaça, sua percepção parece contaminar a própria decupagem, fazendo com que corredores, elevadores, salas e estruturas metálicas adquiram uma aparência cada vez mais estranha. Há uma verdadeira construção espacial por trás desse estilo, como se o prédio fosse sendo descoberto aos poucos conforme a noite avança. É um filme de ação que passa uma quantidade surpreendente de tempo simplesmente esperando, observando e deixando seus personagens existirem dentro daquele espaço, até que a atmosfera se torne tão importante quanto aquilo que efetivamente acontece.
Essa dimensão contemplativa não significa que o filme seja lento, já que Mulcahy encontra maneiras muito inventivas de reorganizar aquele mesmo espaço através da montagem e dos ângulos, transformando a espera em tensão e a arquitetura em parte da própria ação. O contraste entre o presente lunar, dominado pela chuva e pela escuridão, e o flashback solar, que recupera a relação entre os dois protagonistas, é particularmente bonito, não apenas por oferecer uma pausa narrativa, mas por criar uma diferença quase física entre os dois momentos da vida dos personagens. Quando voltamos para o prédio, a noite parece ainda mais pesada e a montagem mantém a dinâmica do thriller sem precisar abandonar a atmosfera que havia construído. É curioso que um filme de Dolph Lundgren concebido dentro de uma estrutura tão barata consiga ter esse tipo de ambição visual, aproximando-se, às vezes, mais de um exercício de cinema de câmara experimental, ou mesmo de uma peça existencialista estranhamente colocada dentro de um filme de ação, do que de um simples veículo de ação dos anos 1990.
O problema é que todo esse cuidado visual convive com uma escrita bastante problemática, principalmente na maneira como trata a personagem de Gina Bellman, reduzida, durante boa parte do filme, a uma figura fragilizada e submetida a uma violência sexualizada que existe mais para tornar a ameaça dos antagonistas imediatamente repulsiva do que para desenvolver sua personagem. A própria relação entre os dois protagonistas também é empurrada à fórceps para um registro romântico que nem sempre parece necessário ao que existe de mais interessante entre eles, já que a intimidade dos dois funciona melhor quando nasce da experiência compartilhada, da memória daquela missão fracassada e da condição de profissionais que passaram tempo demais matando para conseguir simplesmente abandonar esse mundo. Ainda assim, Mulcahy consegue extrair visualmente o máximo de um romance problemático mesmo quando o roteiro não ajuda, especialmente na maneira como filma os corpos de ambos durante a noite, encontrando uma sensualidade bastante particular na proximidade física entre eles. Há uma dimensão quase erótica na forma como a chuva, a escuridão e os corpos se misturam dentro daquele espaço, como se o filme estivesse interessado em transformar a própria arquitetura em uma extensão da relação.
Mulcahy consegue impor uma identidade visual tão forte que a torre, a chuva, os reflexos, os corredores e aquela noite interminável acabam adquirindo mais personalidade do que boa parte da trama. É um filme que parece existir entre o thriller de ação e um estranho exercício existencialista sobre dois assassinos esperando pelo próximo trabalho, e essa combinação improvável produz algumas das imagens mais interessantes da carreira de Lundgren.