Chega a ser triste notar como um filme com a densidade e o peso de Assassinos da Lua das Flores foi relegado, pela internet, devido a sua longa duração. Afinal, isso não só indica preguiça e ansiedade do espectador, mas também a crença de que uma história como essa não merece ser contada em míseros 207 minutos de projeção. E mesmo trabalhando um contexto tão importante e tão pavoroso da história norte-americana em pouco mais de três horas, é interessante perceber como Martin Scorsese trabalha o ritmo mais compassado para potencializar o peso não apenas dos atos mais extremos expostos em tela, como também das premeditações em especial, ampliando a percepção do quão inescrupuloso foi o homem branco em busca da supremacia – seja ela racial, econômica ou política.
A propósito, essa é uma característica bem perceptível na filmografia de Scorsese desde seu subestimado Silêncio (2016); famoso por ser um dos cineastas mais enérgicos surgidos da Nova Hollywood, muitas vezes acusado até de glamorizar o submundo do crime com músicas de rock e personagens descolados, Scorsese em sua terceira idade já não parece mais observar o mundo com tanta energia assim. Há quem diga que perdeu o fôlego e até o ânimo de dirigir seus filmes, quando, na verdade, só usou uma melancolia patente em sua visão de mundo para amadurecer suas narrativas. E não deixa de ser curioso perceber como O Irlandês (2019) expurga a vivacidade de obras como Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995) para apresentar uma visão amarga e fatalista sobre a Máfia nos EUA.
Esse, sim, é o Scorsese perfeito para trabalhar o genocídio do povo Osage, não com cinismo, não com energia, não com carisma, mas sim com pesar, com frustração, com culpa. Por isso, Assassinos da Lua das Flores decide trabalhar o ponto de vista dos “lobos” de forma tão esmiuçada que diálogos corriqueiros entre os personagens de Robert De Niro e Leonardo DiCaprio tornam-se a máxima demonstração da dissimulação humana. É muito importante o contraste entre a direção aproximada desses momentos mais secretos dos algozes com os momentos coletivos, de festas e reuniões de família, que vemos na primeira hora.
“Consegue ver os lobos na imagem?”, lê Ernest Burkhart (DiCaprio) em um livro sobre a cultura Osage a fim de estudar sua presa. Conforme vai ficando mais clara a identidade dos “lobos”, notamos cada vez mais o distanciamento que Scorsese cria entre eles e suas vítimas, um distanciamento reafirmado pelas mortes de inúmeros indígenas até a real interferência da lei federal, momento no qual o filme recorre a uma encenação bem mais tradicional… ou talvez, clássica. Seria um comentário sobre Hollywood dentro dessa história?! Não duvido!
Esse recorte focal de Scorsese não é uma maior valorização dos personagens brancos. O diretor reconhece que não tem a experiência vivida pelos nativos para criar uma trama sob o olhar do povo dizimado e, como sempre fez em sua carreira, busca justamente trabalhar elementos com os quais viveu, como homem branco descendente de europeus. Só é uma pena que esse distanciamento dos personagens indígenas, apesar de potencializar a maldade do homem branco, acabe deixando o filme frio demais em relação às mortes, aqui trabalhadas de forma bem semelhante à morte de Jimmy Hoffa em O Irlandês. Se lá, esses modos secos serviam justamente para expor a implacabilidade do crime organizado até mesmo perante antigos aliados, aqui soa deslocada por estarmos falando de genocídio indígena. Portanto, o choque aqui é muito mais acumulativo do que individualizado, o que é um erro pronunciado.
Ainda assim, Assassinos da Lua das Flores apresenta seu maior mérito em uma de suas cenas finais, talvez o ápice da metalinguagem no cinema de Scorsese. O reconhecimento de que aquela foi uma história contada por homens brancos para uma plateia predominantemente branca em uma espécie de espetáculo casual debochado. Uma autoconsciência cínica que consegue provocar risos ao mesmo tempo que, à entrada do próprio Scorsese em cena, é pura incisão em cima de uma das maiores manchas de sangue que os EUA provocaram no século XX.
E que essa cena seja seguida por um pow-wow Osage (uma dança celebratória dos povos nativos) nos dias atuais demonstra não apenas o respeito que Scorsese tem por esse povo como também o reconhecimento de sua dívida histórica ao ser uma das poucas pessoas que conseguiu explorar mais a fundo e contar essa história para o grande público.
E quando essa história enfim é contada, o que incomoda é a duração. Que ironia!