Como já foi abordado em textos anteriores, as comédias screwball eram um estilo de fazer humor essencialmente feminino, no qual deixavam de existir aqueles arquétipos tradicionais da mocinha que espera o homem perfeito, além de outras convenções rígidas atribuídas às personagens femininas. E, embora isso tenha sido amplamente explorado de forma bastante evidente nesse tipo de cinema, As Três Noites de Eva (Sturges, 1941) ressalta esse aspecto de maneira sofisticada e ainda mais escancarada.
A história do filme acompanha Jean, uma golpista que se aproxima de Charles, um milionário ofiologista, interessada apenas em sua fortuna. Porém, conforme os dois se aproximam, ela acaba se apaixonando por ele. O romance dura pouco: ao descobrir o segredo de Jean, Charles a abandona friamente. Como vingança, ela decide assumir a identidade de uma aristocrata inglesa chamada Lady Eve para se reaproximar dele.
A escolha do elenco principal é bastante simbólica. De um lado, temos Barbara Stanwyck, grande estrela do filme, que domina completamente a narrativa ao longo da obra. Barbara já era conhecida por interpretar femmes fatales marcantes em screwballs como Bola de Fogo(Hawks, 1941), Lembra-se Daquela Noite? (Leisen, 1940) e Quando Elas Teimam (Jason, 1938). Porém, é aqui que ela encontra seu papel mais arrebatador. Do outro lado está Henry Fonda, ator já consagrado na Hollywood clássica, principalmente pela filmografia de John Ford, em que costumava interpretar figuras masculinas fortes, heroicas e imponentes. Em As Três Noites de Eva, entretanto, esse arquétipo é invertido: Charles é inseguro, inocente e completamente apaixonado.
Quando ocorre a grande virada da narrativa, essas características começam a se transformar para que a história não caia em estereótipos previsíveis. No início, Jean controla completamente a situação ao perceber que Charles era facilmente manipulável. Entretanto, à medida que os sentimentos surgem, ela se torna emocionalmente vulnerável. Quando Charles descobre que ela é uma vigarista, é ele quem assume a posição de poder e a abandona. Porém, quando Jean retorna sob a persona de Lady Eve, o jogo vira novamente. Ainda assim, o ressentimento dá lugar ao arrependimento, pois ambos continuam cegamente apaixonados um pelo outro, revelando que o sentimento entre eles era real.
Outro elemento característico do filme é a sátira aos papéis de classe. Quando Jean assume a identidade de Lady Eve, ela imediatamente conquista a simpatia e a admiração de todos, mesmo sendo extremamente performática e teatral. E é justamente nisso que está o seu sucesso. A aristocracia é uma classe social rígida em termos de etiqueta e moralidade; porém, partindo da ideia de que a identidade é uma construção e de que a forma como nos apresentamos ao mundo é uma atuação, Jean compreende esse mecanismo perfeitamente. Por ser alguém de fora daquele universo, ela entende suas regras e consegue manipular essa farsa em benefício próprio.
Essa distinção social influencia diretamente a personalidade dos protagonistas. Charles é um milionário cercado de privilégios: educado, refinado, mas também ingênuo e deslocado da realidade fora de sua bolha. Jean, ao contrário, adapta-se facilmente a qualquer ambiente justamente por ser uma sobrevivente. Isso a transforma na pessoa mais inteligente em meio a uma elite composta por granfinos facilmente manipuláveis. Essas ideias dialogam diretamente com o contexto da Grande Depressão, período em que muitos filmes passaram a retratar a classe alta como um grupo de crianças mimadas e inúteis.
Essas rupturas também aparecem nas inversões morais da narrativa. Jean, apesar de ser uma vigarista, soa mais verdadeira do que Charles. Socialmente, ela é trapaceira; emocionalmente, é honesta e genuína. Charles, por sua vez, é moralmente correto e bem instruído, mas emocionalmente distante, cego e incapaz de compreender os próprios sentimentos.
A alienação de Charles e a esperteza de Jean fazem com que o romance se expresse através do caos e do absurdo, algo típico das screwballs. Os dois se conhecem quando Charles tropeça diante dela e, conforme o relacionamento se intensifica, o ambiente ao redor parece se desestabilizar em situações cada vez mais desastradas. Isso fica ainda mais evidente quando Charles reencontra Jean já como Lady Eve. Sem reconhecê-la, ele se apaixona novamente, mas estranha a familiaridade dela. Essa confusão o leva a uma sequência de momentos ridículos: tropeços, quedas, sujeira e humilhações constantes.
Dessa forma, o auge da glória de Lady Eve como figura fascinante coincide com o auge de Charles como um verdadeiro palhaço. Isso demonstra a força feminina da obra e como a presença da personagem de Barbara Stanwyck é ainda mais poderosa e arrebatadora do que se pensa.