Em abril de 1945, após a queda do regime fascista de Benito Mussolini e com a Itália completamente devastada pela guerra, o país começou a lidar com uma crise econômica, desemprego em massa, miséria extrema e desesperança política. O cinema até então dominante — conhecido como “cinema de estúdio” ou “cinema de escapismo” — não era capaz de retratar essa nova realidade. Dentro desse cenário de escárnio social, o Neorrealismo Italiano nasce como uma resposta a esse vácuo político e ideológico que a guerra havia provocado, propondo um cinema voltado para a vida real, retratando a vida das classes trabalhadoras, dos pobres, dos camponeses e das vítimas da guerra, com foco na dignidade humana em meio à adversidade.
O movimento surgiu como manifestação artística antagônica ao fascismo e à destruição estrutural causada pela guerra, em que a câmera era usada como instrumento de denúncia e de reconstrução de uma identidade nacional, perdida em virtude dos valores opressores do regime. Trouxe à tela personagens marginalizados: desempregados, operários, camponeses, crianças órfãs, idosos — grupos que raramente eram protagonistas no cinema anterior, e que aqui se tornaram o principal foco narrativo. Escancarou problemas concretos da sociedade italiana: fome, falta de moradia, exploração, corrupção e a luta pela sobrevivência. Nesse sentido, o cinema neorrealista democratizou o olhar, colocando em evidência a voz dos “sem voz”.
Com isso, Giuseppe De Santis se destacou como um diretor que buscou unir o engajamento político e a crítica social do movimento ao melodrama e ao cinema popular, numa tentativa de transformar o cinema em instrumento de conscientização sem abrir mão de atingir o grande público. Arroz Amargo se mostra muito diferente de outros filmes do movimento neorrealista pois, diferentemente de obras como Ladrões de Bicicleta (De Sica, 1948), De Santis mistura o registro realista — as filmagens nas plantações de arroz e o uso de trabalhadores reais como figurantes — com uma forte carga melodramática, envolvendo uma trama criminosa e sensual enquanto expõe a dura vidas das trabalhadoras rurais.
O filme bebe muito de uma estética herdada dos filmes noir, ao mesmo tempo que se torna deslumbrante ao movimentar sua câmera de forma suave por todo aquele cenário rural, não deixando de estabelecer a classe trabalhadora — no caso, trabalhadoras femininas — como a protagonista da história. Isso se dá mesmo considerando o fato de a trama principal focar na narrativa criminal e romântica. Todo esse núcleo não interfere na identidade neorrealista de Giuseppe De Santis, mas apenas garante uma autoria latente que se reflete em como o diretor filma seus personagens. Ao unir crítica social e espetáculo, o diretor italiano dá início a uma ideia cinematográfica que dialoga com o melodrama hollywoodiano sem abandonar o engajamento político.
Essa identidade de De Santis encontra seu foco nos corpos de seus personagens, não apenas os principais (muitas vezes até de forma sensual e calorosa), mas também em todas as trabalhadoras que suam até mesmo embaixo de chuva, colocando toda aquela classe como a vítima de um crime que não fica tão claro quanto o pequeno roubo de alguns quilos de arroz. O suor do trabalho e o amor conturbado são as principais características que dão o toque neorrealista de Arroz Amargo, isso tudo no meio de muita sensualidade e tensão.