É muito difícil falar sobre filmes de suspense sem mencionar o estilo cinematográfico de Alfred Hitchcock, o grande mestre do cinema que desenvolveu técnicas e obras que definiram grande parte da imagem do cinema moderno. A perspectiva voyeurista da câmera que simula o olhar humano, a construção da tensão narrativa, a aproximação do espectador com as tramas sombrias que ele aborda em seus longas — nos tornando quase que cúmplices naquelas situações — e diversos outros elementos narrativos essenciais ao suspense foram definidos por Hitchcock. Em Armadilha, M. Night Shyamalan posiciona sua câmera para igualar o olhar de quem assiste dentro da história, compartilhando essa visão com o protagonista da história Cooper, criando uma atmosfera tensa com sua decupagem hitchcockiana que cresce gradualmente conforme o jogo de gato e rato dentro do estádio avança.
Hitchcock sempre usava um exemplo clássico ao explicar sua técnica ao contar suas histórias no cinema. Segundo ele, o suspense no cinema é uma espécie de dilatação temporal da espera e da expectação, mais do que a simples tensão construída na cena, essa expectação é explorada a partir de informações cruciais sobre a trama apresentadas ao espectador para além dos personagens do filme, gerando esse alargamento temporal. Por exemplo, se uma bomba explode em baixo de uma mesa durante uma conversa entre dois personagens em um restaurante, quem assiste reage com um susto, sendo diferente no suspense, em que a expectativa ganha maior relevância.
Se acompanhamos uma conversa entre dois personagens, em uma mesa de restaurante, sabendo que embaixo dela há uma bomba prestes a explodir, esse pequeno conhecimento obtido pelo espectador concede uma tensão crescente para a cena, aproximando aquele que assiste para perto da situação. Shyamalan busca essa estratégia para desenvolver a trama de seu filme, no qual o conhecimento prévio de quem assiste confere uma crescente tensa.
Mesmo que o diretor não entregue de forma direta que Cooper (Josh Harnett) é o serial killer que a polícia persegue, essa informação rapidamente vai ficando mais evidente conforme a narrativa avança e essa disputa estratégica vai ficando mais densa e fechada. A decupagem de Shyamalan evidência essa influência hitchcockiana de se recusar a construir um mistério, e de focar toda sua narrativa no desenvolvimento de sua tensão, pois Cooper não apenas tem que enfrentar a armadilha montada pelo FBI, mas também lidar com a presença de sua filha dentro desse círculo de perseguição, no qual a imagem do pai de família amoroso e caloroso entra em conflito com o assassino psicótico e calculista.
É interessante como o diretor opta por não transformar o cenário do estádio em um ambiente claustrofóbico, mas sim em uma arena de perseguição entre Cooper e o FBI. Os planos abertos e os jogos de câmera que simulam a observação humana são elementos primordiais na construção de um suspense digno de Hitchcock, no qual a perspectiva voyeurista nos une ao pensamento do protagonista, lutando contra o tempo não apenas para manter sua integridade, mas também a de sua família, o que soa irônico, pois nesse caso ele também serve a trama como o vilão.
Uma coisa muito clara sobre Shyamalan em seu filme é como o diretor não hesita em contar com inúmeras coincidências para dar continuidade ao suspense e a tensão de sua narrativa. Por diversas vezes, Cooper parece passar por cima da segurança e dos funcionários do estádio por pura ingenuidade deles; e até mesmo durante o terceiro ato, no qual a perseguição transborda para fora do estádio, a genuína falta de congruência em certas situações apenas funcionam como um potencializador de tal elemento narrativo.
Essa dualidade do protagonista, a faceta do homem de família dedicado e o monstro sem remorso, dá aos momentos chave do filme uma característica que se assemelha totalmente à sua ideia principal. Essa persona de Cooper não é dissecada como um estudo de personagem, muito pelo contrário, todos os momentos que esse passado misterioso e perturbador vem à tona, são apenas para manter essa perseguição viva, uma vez que não é de interesse do diretor aprofundar seus temas em sua história, mas apenas desenhá-la como uma crescente de tensão.
Armadilha pode ter sido um filme criticado por suas facilitações narrativas e por seus momentos em que a coincidência reina, mas Shyamalan parece deter noção disso, abrindo mão de uma lógica universal em prol de uma lógica própria. Pois, de acordo com Alfred Hitchcock, qualquer coisa é válida na busca pela emoção no cinema.