Para quem teve a infância nos anos 1980 e 1990, provavelmente já ouviu os poemas musicados de Vinicius de Moraes, compilados nos álbuns da Arca de Noé. Canções como O Pato, interpretada pelo Boca Livre ou A Casa, pelo MP4, eram constantes nas festinhas de aniversário. As gravações foram lançadas no ano de 1980 e entre outros intérpretes têm gigantes da música como Elis Regina, Milton Nascimento, Fagner, Alceu Valença, Ney Matogrosso e tantos outros.

Considerada a maior animação brasileira em orçamento e complexidade de produção, a coprodução com a Índia usa as canções como inspiração para contar a história bíblica da arca de Noé como uma fábula musicada. A narrativa segue Tom (Marcelo Adnet) e Vini (Rodrigo Santoro), dois ratinhos músicos que ficam sabendo do dilúvio e tentam entrar juntos na arca, apesar de não ser permitido mais de um macho e uma fêmea de cada espécie. Mas, enquanto um é barrado e tenta sobreviver à tempestade com um grupo de insetos, o outro tem que lidar com a tirania do leão Baruk (Lázaro Ramos) dentro da arca.

Apesar de não ser exatamente um musical, o filme tem bons momentos com as canções de Vinicius, especialmente quando interpretadas pelos dois ratinhos principais – vale ressaltar o primoroso trabalho de dublagem da dupla Santoro e Adnet. No entanto, a maior parte das músicas fica espremida em um momento em que há uma espécie de show de talentos dentro da arca, e muitas nem tocam inteiras, o que é uma pena porque, se a intenção era criar interesse pelas canções nas novas gerações, acho que vai ter que ficar para a próxima.

A animação em si não ajuda muito, pois ainda que seja bem trabalhada em movimentos e texturas, é extremamente derivativa de filmes como A Era do Gelo (Wedgr, 2002) ou Madagascar (Darnell, McGrath, 2005). Não há nada em termos de design que se destaque ou que traga uma característica de brasilidade para a tela. Inclusive na escolha dos animais apresentados na arca, que, é claro, deveria seguir os mencionados nos poemas, mas mesmo ao fundo a maioria dos bichos é de outro local ou genérico – como girafas, ursos, gorilas, elefantes ou cachorros, bodes, pombos.

Entretanto, o catastrófico problema do filme é a comédia. As piadas são extremamente datadas, ou tentam atingir o público mais jovem de uma maneira vergonhosa, ou, ainda por cima, fazem humor em cima do público gay. Neste último caso, em uma cena em que um personagem é afogado e precisa de respiração boca-a-boca, outro, do mesmo gênero, se compromete a fazer e a câmera ressalta (inclusive com corações) que ele vai beijar o primeiro, porém o que estava desacordado desperta a tempo de não ser “beijado”.

Outros exemplos, são a menção a dancinhas de TikTok e ao programa The Voice, os animais falando de selfie e seguidores e a filha do Noé ressaltando a importância de famílias lgbtqiapxyx (sic). A cereja do bolo, ainda assim, é quando em um momento de tensão alguém fala “ninguém solta a pata de ninguém” – em 2024, num filme infantil, sobre a arca de Noé, Vinicius de Moraes. Eu fico triste pensando em todo o trabalho de produção, envolvendo tantas pessoas competentes e tantas figuras renomadas e não tinha ninguém para falar que talvez fosse melhor não?

Eu quis muito gostar desse filme. Pela nostalgia de infância, por ser fã do formato, ou até por amar bichinhos, mas dessa vez não deu. É bizarro como pessoas no Brasil acreditam que para um longa desse porte ter projeção internacional deva parecer um genérico da Illumination (estúdio dos Minions) e não algo que represente mais nossa arte, nossa fauna e nosso humor também. Somente as músicas e o belo trabalho de dublagem – nisto somos realmente os maiorais – para salvar a animação.