“Quem é você?”
Essa pergunta perpassa todo o início, desenvolvimento e fim de Angel’s Egg. É um questionamento que vai e vem constantemente por parte dos únicos dois personagens da obra em uma eterna tentativa de compreensão. Esse desejo, porém, não é exclusivo dos personagens. Como espectadores, também queremos saber quem são aquelas pessoas, a natureza do ovo e a história daquele universo; entretanto, tal qual a pergunta “quem é você?”, essas dúvidas não são respondidas. Ou são?
Angel’s Egg aparenta uma simplicidade narrativa absurda: uma jovem sem nome de longos cabelos brancos e aparência anêmica busca proteger um ovo de origem misteriosa em uma cidade gótica aparentemente em ruínas. Não há contexto, desenvolvimento ou explicações; a nós, só é dado o direito de presenciar a jornada. Não compreender, somente experimentar.
O espectador aqui é levado a um universo diferente. O tempo é relativo: no presente vemos a menina com suas roupas vívidas, perpetuamente em movimento; porém o presente convive constantemente com o passado, marcado pelos seus longos e desgrenhados cabelos e pela cidade que parece há muito abandonada. Tudo isso se coaduna com o futuro contido no ovo e a esperança da revelação do mistério nele contido.
Essa simultaneidade temporal transforma-se em curiosidade, especialmente por parte do homem que a menina encontra no caminho, o qual carrega uma arma em forma de cruz. Ele vive em uma perene dualidade entre proteger o ovo e conhecer seu conteúdo; uma permanente expectativa por um futuro melhor e o medo do desconhecido. Uma constante contradição, portanto, de desejo por controle e de fé. Nesse sentido, a relação dos personagens com o conteúdo do ovo é uma manifestação da ideia-base do mito grego de Orfeu.
Orfeu, filho de Calíope e Apolo, era um talentoso músico que perde sua noiva Eurídice pouco antes do casamento. Inconsolável, resolve descer ao submundo e pedir a Hades o retorno de sua amada, pedido que é acatado pelo deus dos mortos sob uma condição: Orfeu não poderia olhar para trás até que eles chegassem ao mundo superior. Contudo, o músico se vê desconfiado do acordo e ansioso para ver Eurídice novamente, motivo pelo qual olha para trás, apenas para assistir a ela ser levada ao mundo dos mortos novamente, e dessa vez em definitivo. Há inúmeros escritos acerca de tal mito, todavia uma das mais importantes ideias que se podem retirar dele é a da contradição entre controle e fé.
O homem, a menina e o ovo em Angel’s Egg são tão vítimas dessa contradição quanto Orfeu, precisando viver constantemente envoltos em um mundo destruído e uma esperança fraca, simbolizada em um objeto tão frágil como um ovo. Esse contexto decadente adiciona uma nova camada à dualidade controle-fé: o niilismo. No filme, apesar da quase ausência de falas, as imagens nos dizem muito. Vemos um mundo abatido, em que a arquitetura gótica — muito própria do Catolicismo — está em ruínas, as igrejas vazias e os poucos moradores caçam sombras, presos a um passado há muito desaparecido. Quando o passado é uma lembrança distante, às vezes confundido com um sonho, o presente está destroçado e o futuro depende de uma fé frágil, o que sobra?
É de extrema dificuldade acreditar quando se está em um mundo sem a mínima coesão ou possibilidade de controle. E aqui nem me refiro somente à esfera religiosa, mas à fé no futuro. Nesse contexto, o presente é o único tempo que existe e a promessa de um futuro distante perde seu caráter de esperança e se reveste de curiosidade; então, tal como Orfeu, olhamos para trás em desconfiança. A destruição se sobrepõe à edificação, e a peregrinação, assim, parece infindável enquanto nos prendemos a pretensões mentirosas de controle.
Do começo ao fim, o homem carrega uma cruz, mas esse objeto já perdeu seu significado há muito tempo. Junto a isso, o problema da identidade que permeia o longa ganha outra faceta: se tudo perdeu o sentido, ainda importa saber quem são aquelas pessoas? Será que elas sabem quem são? Sem a coletividade e sozinhos nesse mundo vazio, a identidade sequer existe?
Angel’s Egg é sobre fé, mas também é sobre significado. À pergunta inicial — “quem é você?” — o filme responde por outro questionamento: realmente há um significado inato? Em um mundo como o construído por Mamoru Oshii, talvez esse sentido já não exista mais. O ovo é a esperança, mas esperança exige fé, e como ter fé em meio ao vazio? O futuro é desconhecido, e o único controle que temos sobre ele é a crença. À menina e ao homem de Angel’s Egg impõe-se uma pergunta, a qual também é feita ao espectador: você prefere crer no futuro e abraçar o desconhecido ou se entregar ao niilismo do presente, e olhar para trás em busca de sua Eurídice?