A Mais Preciosa das Cargas é um desses filmes que aparecem de surpresa. Não foi muito divulgado, nem foi falado no circuito de festivais, mesmo tendo conhecidos nomes do cinema francês. Por exemplo, o diretor Michel Hazanavicius, vencedor do Oscar de Melhor Filme por O Artista (2011); Dominique Blanc, que participou de Um Assunto de Mulheres (1988); Grégory Gadebois de Golpe de Sorte em Paris (2023) de Woody Allen; e o narrador Jean-Louis Trintignant, considerado um dos melhores atores do país, tendo participado de Amour (2012) de Michael Haneke e A Fraternidade é Vermelha (1994) de Krzysztof Kieślowski, e que aqui faz sua última aparição no cinema antes de falecer em junho de 2022. Felizmente, foi uma boa surpresa e uma ótima despedida para Trintignant.
Na trama, acompanhamos um lenhador (Grégory Gadebois) e sua esposa (Dominique Blanc), moradores de uma grande floresta e sujeitos a condições desumanas de vida em decorrência do frio, da fome e de uma guerra da qual eles apenas conseguem ver os trens passando pelos trilhos próximos. Um dia, a esposa encontra uma menina bebê que foi arremessada de um dos trens e se propõe a cuidar dela, por pensar que seria um presente dos “deuses do trem”. Contudo, seu marido não aceita a criança, por pensar que ela seria uma “sem coração” — uma espécie de raça surgida nas lendas locais, que designa aqueles que vêm nos trens, e que seriam seres cruéis e responsáveis por matar Deus e iniciar a guerra. Assim, a família precisa lidar com as dificuldades e conflitos advindos desse novo contexto.
A partir dessa ideia-base, o longa segue uma estrutura de fábula. Por boa parte da duração, tudo é distante e tem um traço mitológico: o lugar é separado do mundo e parece seguir uma lógica própria, o tempo em que a trama se passa demora para ficar claro, os personagens não têm nomes, todo o mal é atribuído a essa categoria lendária dos “sem coração” e o amor é o grande ponto de resolução dos conflitos. Essa fábula acaba se tornando progressivamente mais emocionalmente densa ao passar da duração, muito por conta de os acontecimentos retratarem de maneira bastante crua a realidade da vida daquelas pessoas; mas nunca perde de vista a esperança, esta que é canalizada na figura da criança resgatada. A dialética entre o sofrimento e a esperança é constantemente pontuada pela animação, que varia a vivacidade de suas cores conforme o contexto e, principalmente, pela trilha sonora de Alexandre Desplat, a qual é uma das melhores que vi no cinema independente nos últimos anos, e que é a principal responsável por dar os mais diversos tons de felicidade e de melancolia ao enredo.
Ao longo do filme, é notável como o ponto de conexão entre o lenhador, a esposa e o homem que arremessou a criança — o qual ganha destaque na segunda metade — é a preservação da humanidade. A primeira dissonância entre o casal se dá pelo simples fato de o lenhador ter medo de perder o pouco que tem para a barbárie daqueles de fora da floresta e pela expectativa da mulher de que aquela criança represente algo maior que o mero acaso. No caso do homem que joga a criança para fora do trem não posso falar muito para não estragar essa atmosfera de desconhecimento do ambiente, porém ele talvez seja a maior representação desse medo da desumanização dos personagens.
O temor constante e a contraposição dele com a esperança começam a tomar contornos mais concretos a cada minuto que passa, com as expectativas virando realidade. A animação fica mais densa, a trilha sonora mais carregada, a narrativa ganha reviravoltas e nos aproximamos do contexto em que tudo se passa. Apesar de eu gostar do modo geral de como o desenvolvimento se dá, acho que quebrar esse lado de fábula em prol de tornar o enredo uma espécie de ficção histórica faz com que o impacto não seja tão forte, justamente por expandir as questões que envolvem aquele universo e mudar o foco de uma fábula sobre humanidade e esperança para um conto sobre esperança em um determinado contexto histórico. Não chega nem perto de ser aquela coisa asquerosa de alguns filmes de guerra que se utilizam de um sofrimento inimaginável para produzir um melodrama superficial, muito por conta de o fundamento da trama se dar na floresta; contudo, certamente tira uma parte do poder e do caráter único do filme.
É difícil fazer um drama desse tipo sem cair em moralismos ou em uma romantização do sofrimento. Todavia, A Mais Preciosa das Cargas consegue fazer isso muito bem, ainda que penda a alguns vícios no meio do caminho. Uma animação belíssima com uma trilha sonora espetacular sobre amor, humanidade e esperança, algo tão atemporal e tão difícil de se ter em tempos sombrios, que nos lembra como as relações interpessoais podem ser complexas, cruéis e belas ao mesmo tempo.