A nova animação da Dreamworks, A Ilha Esquecida (2026), escrita e dirigida por Joel Crawford e Januel Mercado, surgiu da vontade de ver tanto o folclore filipino, quanto protagonistas filipinos em um blockbuster. O filme tem como inspiração as vivências pessoais dos dois diretores nos anos 90, sua amizade de quase duas décadas, além das mulheres filipinas em suas vidas (a esposa e as filhas de Joel, e a irmã de Januel).

A história segue Jo e Raissa, duas adolescentes que são melhores amigas desde a infância, e se aproximaram graças ao seu interesse pela Manananggal e outros personagens do folclore filipino, que aparecem nas histórias contadas pela avó de Jo, Fatima, sobre quando visitou a ilha Nakali.

O conflito entre as duas protagonistas é o fato de que Raissa vai fazer faculdade na Califórnia, enquanto Jo se vê sozinha após a morte de sua avó e sem perspectiva de um futuro profissional. Raissa, influenciada por sua mãe, age como se a amizade das duas fosse algo que tivesse que abandonar para amadurecer, enquanto Jo tenta lidar com esse abandono iminente das piores maneiras possíveis.

É justamente enquanto as duas discutem que um objeto mágico surge na praia, abrindo um portal para a tal ilha Nakali das histórias de Fatima, que sempre sonharam em visitar. O problema é que elas acordam no dia seguinte em Nakali sem saber o que aconteceu na noite anterior. A partir daí o filme apresenta a ilha e os personagens mágicos que as duas encontram sob esse pano de fundo de mistério, em que não se sabe exatamente quem está dizendo a verdade, qual versão da história é mais próxima da realidade, e em quem é possível confiar.

Essa narrativa não-linear, ao mesmo tempo em que enriquece o que seria uma história básica de aventura, também acaba prendendo as personagens em um estado de constante mau humor, que, embora seja necessário para o arco narrativo, é, por vezes, irritante. Raissa precisa ir logo embora de lá para conseguir pegar seu vôo para os EUA, e Jo não se conforma que sua amiga só pense sobre isso quando estão as duas na mágica Nakali. Como espectadora, ao invés de me compadecer do sofrimento das protagonistas, só fiquei cansada de ser lembrada do conflito central do filme a cada diálogo, quando só queria conhecer mais dos personagens coadjuvantes e suas histórias.

No entanto, a animação em si é tão dinâmica, combinando a excelência que se espera da Dreamworks com as referências pessoais de seus criadores, culminando em uma estética cheia de brilho neon que remete aos anos 90, com uma paleta de cores de encher os olhos, e sequências em 2D que homenageiam diferentes gêneros de animação japonesa. Todos os recursos são usados com maestria para trazer à vida a magia da ilha e das situações em que as personagens se encontram, traduzindo visualmente de forma criativa conceitos como memória e esquecimento.

Apesar de o filme tratar de temas universais, as especificidades da cultura filipina dão a ele um toque especial. É interessante observar as similaridades entre o modo de vida dos filipinos com o nosso, da América Latina, já que eles foram colonizados pela Espanha. Ainda no início do filme, por exemplo, é mostrada uma animada festa de família onde há fartura de comida, uma foto do Jesus europeu, tias fofoqueiras e karaokê — poderia facilmente ser o Brasil. Para além disso, também é interessante o fato de que os personagens folclóricos são muito diferentes do que se vê no ocidente; A Manananggal, por exemplo, é uma criatura alada de dentes afiados que separa o torso da parte de baixo do corpo, o que cria um efeito visual assustador, em parte pela pura estranheza dessa ideia. A trama do filme explora, desde o início, o tanto que essa personagem é estranha até para as próprias crianças filipinas, já que, com a colonização, todos os mitos locais se tornaram, em certa medida, histórias malucas sobre seres malignos. As protagonistas, porém, abraçam essas histórias em toda a sua glória obscura e gore, o que, além de exaltar o folclore em si, também as torna marcantes, parecidas com muitas crianças e adolescentes que igualmente gostam de coisas medonhas (eu mesma fui uma delas).

O tema da memória no filme, portanto, vai desde as memórias dos anos de amizade entre duas meninas, até a memória coletiva de um povo, e explora o tanto que essas memórias são importantes para a construção de quem nos tornaremos. Nos tempos difíceis em que vivemos é sempre importante nos lembrar do nosso passado, dos sofrimentos e resistências que a hegemonia cultural tenta apagar. É importante lembrar quem nos ajudou a chegar onde chegamos, tanto como pessoas quanto como povo.