Uma das principais ideias do cinema contemporâneo talvez seja a idealização do popularmente chamado de “Cinema de Choque”, uma visão cinematográfica que ganhou força no início dos anos 2000 com filmes autorais que prezavam, acima de todo o resto, o choque do espectador pelos elementos visuais e narrativos apresentados em tela. Apesar de existirem diversas obras dessa pequena onda, que considero grandes obras-primas — usando de exemplo o longa de Michael Haneke, A Professora de Piano —, muitas delas sofrem com uma falta de inspiração linguística e narrativa, algo que se perde entre as realizações de alguns filmes ao concederem, em sua maior parte, um grande espaço para o elemento do choque e do desconforto proporcionado, sendo incapazes de desenvolverem suas ideias para além do ideal chocante.
A Garota da Agulha é um filme que tem sua concepção originada desse ideal cinematográfico, possuindo sua gênese narrativa na relação entre causa e efeito das ações e vivências sofridas de sua personagem principal, mas que vai além de apenas um exercício de choque pelo choque. Para estabelecer um leve contexto, o filme narra a história de Karoline, uma costureira que vive na cidade de Copenhagen, após o fim da Primeira Guerra Mundial, lutando contra o próprio sistema no qual está inserida. Grávida e abandonada, ela busca refúgio em uma agência clandestina de adoção de crianças, lidando com uma descoberta horrenda.
Toda essa pequena sinopse se manifesta de uma maneira em frente ao contexto em que o filme se passa: em meio ao período de reconstrução da Europa após a guerra, um momento histórico em que a vida social do proletariado era afiadamente sofrida. Partindo disso, o filme se permite transitar entre diversas abordagens ao longo das duas horas em que acompanhamos a pequena jornada de Karoline em meio a esse cenário melancólico, como se lidasse com essa ideia de causa e efeito de uma maneira visceral, onde os rumos da história escalam de diversas formas, indo do romance ao melodrama, do suspense tenso ao terror psicológico.
Entre essa fluidez narrativa, a câmera Magnus von Horn parece ansiar pelos momentos chocantes do filme. Isso fica muito claro quando chegamos ao segundo ato do longa, onde entendemos como todo aquele início melodramático funciona quase que como um prelúdio para os acontecimentos hediondos de sua segunda metade, dando um grande espaço para seus elementos expressionistas de horror. Essa influência expressionista se encontra bastante em como von Horn filma todo o cenário decadente da cidade de Copenhagen e também nos enfoques nas fortes e profundas expressões de seus personagens, onde o uso da fotografia em preto em branco exalta essa atmosfera fúnebre e desesperançosa que o capitalismo tardio do período entre guerras proporcionou na vida da classe operária, não apenas em seu cenário, mas também em sua encenação.
Todos esses elementos narrativos e estilísticos contribuem para essa proposta de enfatizar esse ambiente hostil, não apenas para um indivíduo inserido nas castas mais baixas da sociedade europeia, mas também para uma mulher. O diretor não se interessa em apenas estabelecer esse sentimento de aflição gerado pela imagem, ele também demonstra, pela personagem que acompanhamos, uma mulher tratada como um rato, lidando com os sentimentos da maternidade em meio a um turbilhão de situações que colocam seu psicológico em cheque. Von Horn, ao tratar dessas temáticas sensíveis, evidencia como a crueldade humana parte, por muitas vezes, de relações de classe e de poder que se encontram entre as entranhas de uma sociedade marcada por divisões violentas, que no caso de Karoline, não se limita a apenas uma visão de classe, mas também de seu gênero.
A Garota da Agulha é filme que narra um período de grande sofrimento de massa por parte do capitalismo e suas tramas desumanas, das condições precárias do trabalho, da maternidade e da privação desse sentimento para a mulher, isso devido ao mundo e como ele foi entregue às mãos da crueldade.