Memória é algo completamente indissociável da ideia de narrativa, tanto na literatura quanto no cinema, especialmente quando nos referimos a histórias sobre a passagem do tempo, relembrar implica diretamente interpretar e atribuir sentido aos acontecimentos, mais ainda quando esses acontecimentos se tornam a base do sentimento de pertencimento. A Bola Ngra, da dupla Javier Ambrossi e Javier Calvo, é um longa que não apenas torna a memória o centro narrativo, mas que também atrela todas as vivências de antepassados como parte de uma consciência identitária. 

Seguindo os episódios na vida de três homens homossexuais em diferentes períodos da história da Espanha, os diretores amarram esses acontecimentos através de uma herança tanto afetiva quanto histórica em relação às suas existências como minorias marginalizadas. O primeiro período, 1932, antecede a Guerra Civil Espanhola; o segundo, 1937, acontece em plena guerra; e o terceiro, 2017, apresenta uma Espanha formalmente muito mais aberta à diversidade sexual, mas que ainda é marcada por traumas do passado. 

Dessa forma, a narrativa estabelece um diálogo entre diferentes eras, em prol de contar como a vivência homossexual não pode ser compreendida meramente como uma experiência individual, mas também é determinada pelas condições sociais e políticas de determinada época. A estrutura fragmentada do longa, que não se limita a mostrar essas épocas de maneira isolada, o torna quase que uma genealogia da vivência queer, unida principalmente pela noção de que, quando um opressor tenta apagar parte do passado, ele permanece para além daquela geração, seja na memória familiar, nos vestígios sociais e, o que é o principal ponto da obra, nas obras de arte.

Nesse âmbito, os Javiers trabalham com uma estética bastante melodramática, fazendo com que o drama de seus personagens não se limite apenas aos seus cenários históricos, mas também à maneira como suas interações são filmadas. Unindo um melodrama clássico com elementos de um cinema corporal, os diretores conseguem transitar muito bem entre o político e o afetivo ao longo de seu filme, permitindo que os sentimentos perante os grandes acontecimentos em volta dos protagonistas sejam transmitidos também a partir da tensão sexual entre seus corpos. O desejo se torna então uma forma de resistência, em que o simples ato de amar significa desafiar uma ordem social vigente e potencialmente hostil para aqueles homens.

Toda essa proposta narrativa gira em torno da preservação de uma peça teatral inacabada de Federico García Lorca, poeta espanhol e homossexual assassinado em 1936 pelas forças franquistas. Seu trabalho é ponto vital entre as diferentes narrativas, ele representa diretamente a memória materializada, a reflexão de um artista sobre sua existência em meio a uma sociedade que o odiava, que aparentemente esteve perdida por muito tempo. É nesse detalhe que a obra ganha uma interpretação quase metalinguística: ela parte de algo que literalmente ficou incompleto, sendo nessa lacuna histórica em que os diretores transformam (de maneira ficcional), o legado perdido de Lorca em um símbolo do peso carregado daqueles que uma vez foram considerados indignos de pertencimento pela maioria.

Nesse contexto, A Bola Negra se alinha a uma tradição do cinema histórico espanhol que usa o passado não apenas para reconstruí-lo, mas também para desafiar o que foi esquecido. A figura de Lorca atua como um elo entre literatura, cinema, sexualidade e memória: sua obra inacabada transforma-se no ponto de partida para conceber as narrativas que poderiam ter sido contadas e, principalmente, aquelas que foram silenciadas por décadas.