Este é o segundo filme a receber o selo de Original Globoplay, o primeiro sendo Ainda Estou Aqui (Salles, 2024), e diferentemente do antecessor, Vitória tem uma carinha de feito direto para o streaming. De uma maneira pouco inspirada, longa conta a história incrível e impactante sobre a denúncia feita por Joana Zeferino da Paz: uma mulher negra que, em 2005, aos 80 anos de idade, filmou as operações do tráfico na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, levando à prisão cerca de 30 pessoas, incluindo policiais.

A trama é completamente centrada em Nina, a Joana da ficção, interpretada pela magnânima Fernanda Montenegro. Seguimos quase que somente o ponto de vista dela, com a direção abusando de close-ups e sempre seguindo os caminhos da protagonista — o que é bom, porque podemos nos deleitar com mais uma grande interpretação de Fernanda Montenegro, contudo todo o contexto permanece apenas no clichê superficial. O longa parece querer e ao mesmo tempo ter receio de entrar a fundo em toda renúncia e resiliência de quem escolhe combater o crime no Rio de Janeiro.

A posição de Nina em sua janela, observando passivamente através de uma câmera os crimes em frente ao seu prédio, remete de maneira óbvia ao clássico Janela Indiscreta (1954). No entanto, diferente do filme de Hitchcock, não há tensão sobre as descobertas, nem quando relaciona à criminalidade figuras já apresentadas na trama. Então, o que sobra é o drama pessoal da protagonista sendo constantemente rejeitada quando tenta buscar soluções para a questão do tráfico, especialmente quanto às balas perdidas no prédio e ao aliciamento de menores.

É possível que a produção conturbada devido ao súbito falecimento do diretor e roteirista Breno Silveira durante o início das filmagens, em 2022, possa ter influenciado algumas das escolhas narrativas. Após a tragédia, o comando da produção ficou por conta de Andrucha Waddington. Também é importante ressaltar que, durante esse tempo, ainda não se sabia a verdadeira identidade, fisionomia ou etnia da Dona Vitória real, pois Joana ainda estava dentro do programa de proteção à testemunha, e a informação se tornou pública após a morte dela, em 2023.

É muito especial ver a Fernanda Montenegro ainda entregando emoção na telona, ainda mais assessorada por atores carismáticos, como Linn da Quebrada e Alan Rocha — os quais parecem cuidar não somente da personagem, mas também da atriz em cena. A história de coragem de Joana é sensacional por ela mesma, porém, por outro lado, é contada aqui de uma maneira prática e simplória.