Remake de filme argentino de 2019, 4×4 (Cohn), Confinado aposta no minimalismo para entregar um thriller decente. A história segue Eddie (Bill Skarsgard) que é estabelecido como um cara perdido na vida tentando se reerguer; no entanto, a van que ele usa para trabalhar está presa em uma oficina e ele não tem dinheiro para pagar o serviço. Para conseguir recuperar o veículo, ele tenta cometer pequenos furtos e flerta com a ideia de roubar um carro. Além disso, o rapaz é negligente com a filha, que vive apenas com a mãe, mas quer construir uma boa relação com a menina.
A personalidade e motivações de Eddie são estabelecidas logo de início usando a estética, a qual apresenta Bill Skarsgard de cosplay de Pete Davidson, e uma montagem recortada de várias pequenos momentos: ele pedindo dinheiro para alguém, fumando um vape, discutindo com a ex e tentando abrir a porta de vários carros. O filme muda completamente quando ele consegue finalmente entrar em uma SUV preta de luxo estacionada em um local não condizente com o modelo do carro.
Ao entrar no veículo, o rapaz fica preso imediatamente. O carro tem vidros indestrutíveis — de modo que as pessoas do lado de fora não veem o que está dentro —, é à prova de som e Eddie não consegue o tirar do lugar. A partir daí ele está à mercê de seu sequestrador, William (Anthony Hopkins), que tem total controle sobre o que acontece dentro do veículo. O longa se transforma em um thriller de confinamento e passa a maior parte do tempo restante neste espaço limitado, apenas com Eddie e a voz de William.
A força do filme está principalmente nos dois atores. Bill Skarsgard tem uma fisicalidade e expressividade que consegue transmitir as cinco fases do luto sem tanto esforço e de maneira convincente. Do desespero inicial até a aceitação, bem como a esperança de encontrar uma maneira de fugir, o ator passeia pela multiplicidade de sentimentos de forma que cria empatia em quem está assistindo. Anthony Hopkins é tão ameaçador quanto canastrão, como um burguês “trumpista” que está cansado da impunidade da criminalidade na cidade e, ao passar por uma tragédia e contemplar o fim da própria vida por conta de uma doença, decide resolver o problema com as próprias mãos.
A estrutura do filme me lembrou dois outros longas: Por um Fio (2002), de Joel Schumacher e Jogos Mortais (2004), de James Wan. Nos três, pessoas são sequestradas e precisam executar tarefas para (talvez) conseguir sair da situação em que estão. A dinâmica aqui é a mesma dos outros, mas toda a ação dentro do carro é interessante pela maneira claustrofóbica que o interior do carro é filmado e por manter uma progressão constante sobre as possibilidades de fuga, além de adicionar informações sobre os personagens.
O problema do filme são os diálogos piegas. Por mais que os atores sejam incríveis, é difícil não torcer o nariz para as frases de efeito, o discurso clichê republicano de William e a tentativa de uma linguagem “moderninha” para Eddie. Além disso, a narrativa circula por um moralismo fraquíssimo sobre os “problemas da sociedade”; inclusive com um momento em que William acusa Eddie de ser comunista e isso não vai para lugar nenhum. Não sei se alguém que vai assistir esse longa acredita que “bandido bom é bandido morto” – quando ele tem a cara de um Bill Skarsgard, se é que me entende – mas caso essa pessoa exista o filme deixa bem claro que isso não é legal.
A resolução também é um pouco anticlimática e apressada. Talvez por termos passado por várias ideias de como poderia terminar antes, a escolha final parece pouco inspirada. Ainda assim, a proposta do filme funciona na criação da tensão e agonia de estar preso naquele local. Também funcionou para me deixar curiosa para assistir a versão argentina.