Filtrar obras de arte de qualquer tipo para tentar preservar uma curadoria “perfeita” é uma idiotice, por inúmeros motivos. Primeiramente, porque precisamos reconhecer a importância de assistir a filmes ruins. E, em segundo lugar, o mais óbvio: é impossível saber a qualidade de uma obra sem assisti-la. Quando fui cabisbaixo para a cabine de A Primeira Profecia (Stevenson, 2024), sentindo-me obrigado a assistir a mais uma prequel caça-níqueis de uma grande franquia do terror, fui atordoado por um longa que se revelava até melhor do que o clássico.
E ao aceitar o convite para a cabine de O Som da Morte por motivos extremamente supérfluos – uma paixonite por duas atrizes do elenco –, fui de um desânimo cabal por estar assistindo ao novo filme do cineasta responsável pelo terrível A Freira (Hardy, 2018) a um sorriso no rosto, percebendo que este seria o longa que me faria parte de uma minoria de defensores. Afinal, focando em um grupo de adolescentes que passa a ser atormentado por assombrações, depois de soprar um apito ritualístico ancestral, essa é a típica obra que, sob um olhar superficial, será julgada como boba, clichê, genérica e previsível em uma análise puramente conteudista e pouquíssimo formalista.
Afinal, desde a cena inicial em uma partida de basquete típica de colegial, o diretor Corin Hardy prova que sua apatia estética no filme de 2018 provavelmente sugeria mais uma poda do estúdio do que algo advindo de suas próprias limitações. Em uma condução cheia de planos-detalhe, explorando de forma visceral as consequências do horror que persegue o popular Mason (Stephen Kalyn), o filme nos introduz ao tom formal que o cineasta vai assumir ao longo de sua narrativa, algo bem próximo do que James Wong fazia em suas empreitadas na franquia Premonição.
Como mais um filme que explora a Morte como uma maldição inevitável, continuando o legado slasher que A Hora do Pesadelo deixou a partir de 1984, O Som da Morte destaca-se justamente por aquilo que seu título brasileiro sugere: o desenho de som. Virou senso comum reclamar de jump scares – artifício que consiste em um susto simples que geralmente lida com uma aparição repentina e um barulho estrondoso –, mas aqui eles são utilizados de forma interessante, já que o som do apito ancestral é o que provoca a perseguição motriz da trama e todas as batidas sonoras tão comuns do gênero acabam sendo ressignificadas como a aproximação inescapável do fim. Isso não se limita apenas ao jump scare, mas se expande também aos sons mais sutis que anunciam o perigo à espreita.
Bom destacar também como o filme, apesar de sua coloração acinzentada e constantemente nublada, jamais apela para a total incompreensão das cenas escuras, tão viciadas no gênero ao longo dos últimos anos. Tudo é muito bem visível e a iluminação e os enquadramentos valorizam os planos, em especial na perseguição de seus personagens. Toda a sequência do labirinto, por exemplo, esbanja personalidade e torna-se exemplo de como o cinema de terror recente, tão tematicamente pomposo e formalmente sem ambição, perde muito com essa negligência com o audiovisual.
Só é uma pena que, dentre os vícios do terror contemporâneo, O Som da Morte acabe se rendendo a um dos mais chatinhos e entediantes: os momentos em que um personagem é usado como instrumento de exposição dispensável, como é o caso de Michelle Fairley aqui. Toda a narrativa tem um ritmo tão bom que, nesses trechos explicativos, tudo parece ficar mais atravancado e incoerente, já que as regras místicas da ameaça são constantemente quebradas em prol do bom entretenimento. Se o longa faz questão de parar para explicar seus próprios conceitos, essa liberdade lógica acaba incomodando um pouco mais por ser exigida.
Ainda assim, O Som da Morte me foi uma grata surpresa, desses filmes sem vergonha que não temem o julgamento do senso comum e superam suas próprias limitações com uma abordagem formal divertida e orgulhosa de sua própria natureza. Espero que 2026 nos traga mais filmes assim e deixe mediocridades pretensiosas como A Hora do Mal (Cregger, 2025) no passado a que pertencem.