Durante os dias incertos e sombrios da pandemia, enquanto estávamos todos presos em casa, precisando de um pouquinho de alegria e algo bem estúpido que nos fizesse esquecer por algumas horas dos horrores externos, Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars apareceu no catálogo da Netflix. Foi o filme ideal, no momento ideal, para alguém que, na época, adorava o humor do Will Ferrell e conhecia alguma coisa do Eurovision. Porém, ainda assim, tinha alguma coisa que me impedia de apreciar aquela comédia romântica pastelão.

Revendo o filme hoje, alguns contextos mudaram: sou fã e acompanho o Eurovision desde a edição de 2021 e entendi meu incômodo com o filme, que não conseguia apontar no passado o que era. Mas, antes de mais nada, acho importante pontuar o que diabos é o Festival Eurovision da Canção. A competição musical internacional da Europa acontece anualmente desde 1956 (exceto em 2020) e é organizada pela European Broadcast Union, cujos membros participantes não precisam estar no continente europeu – 52 países já participaram pelo menos uma vez do programa, incluindo Israel, Marrocos e Austrália. Cada país seleciona uma canção original para a competição e, após as apresentações, a pontuação dada pelo público e por um júri especializado de cada país é somada para escolher o vencedor. Entre famosos que já venceram o Eurovision estão a cantora Celine Dion e o grupo ABBA.

Um pouco desse contexto é mostrado no filme, quando logo de início vemos Lars e Sigrit (quando adultos, Will Ferrell e Rachel McAdams) se conectando quando crianças através da admiração pela apresentação de Waterloo do ABBA, no Eurovision de 1974. No presente, os dois têm uma banda, a Fire Saga, e o desejo de participar da competição representando seu país, a Islândia. Porém, enquanto Lars é um homem de meia idade que não amadureceu, sem talento para a música e obcecado pela fama, Sigrit é uma professora de jardim de infância, apaixonada por música, pelo mundo místico dos elfos e por Lars, que não a nota. Eis que todo ano a dupla envia canções para a seleção do país, mas sem sucesso. Dessa vez, no entanto, por conta de uma série de coincidências, eles serão os selecionados para participar do Eurovision daquele ano.

Will Ferrell conta em entrevistas que acompanha o festival desde 1999, por conta de sua esposa, que é sueca, e assistiu presencialmente as edições de 2018 e 2019 como preparação para o filme – inclusive entrevistando participantes e tendo acesso aos bastidores. Portanto, existe um cuidado em criar uma narrativa fidedigna sobre o evento e em ressaltar as excentricidades e peculiaridades dos participantes e das apresentações. É nesse ponto que o filme brilha. O que, mesmo antes de conhecer mais do Eurovision, já era para mim um ponto de destaque, agora é mais ainda, por entender as referências aos elementos recorrentes – como as projeções aleatórias, os apresentadores robóticos, as trocas de roupas e os tipos de adereços malucos e suportes usados nas apresentações; também por saber um pouco dos bastidores e das piadas internas (como a Inglaterra sempre ser odiada e não ganhar pontos do público; ou o fato de que quem não canta em inglês não ganha). Além disso, ainda tem o easter egg de participantes reais do Eurovision aparecendo em um medley pop.

O problema é que essa parte sobre o festival não é nem metade do filme, que, na realidade, foca em uma história de romance porca e momentos de humor sobre tamanho de pênis. Lars é o personagem mais desagradável que eu já vi em filmes de comédia romântica – o que me surpreendeu, visto que Will Ferrell é um ator que consegue entregar vulnerabilidade mesmo quando interpreta personagens insuportáveis, como em Mais Estranho que a Ficção (Forster, 2006). Aqui o protagonista não tem nenhuma redenção; a “lição” final é abrupta e não merecida e toda a comédia que envolve Lars é sobre humilhação de outras pessoas, como a própria Sigrit, ou sobre o tamanho do pênis dele – veja que o problema aqui não é necessariamente o conteúdo em si, e sim uma repetição incessante, que não escala o humor e entrega apenas piadas sem imaginação. Isso tudo contribui para que o antagonista, o participante russo Alexander Lemtov (Dan Stevens), pareça completamente sensato e infinitamente menos arrogante do que Lars, em especial na maneira como trata Sigrit. Aliás, é dele também que surgem os melhores momentos de comédia física e as pouquíssimas boas piadas.

Esse amargor da personalidade de Lars acaba tirando o brilho dos números musicais envolvendo o duo Fire Saga, que poderiam ser mais engraçados ou emocionantes não fosse a presença dele: desde a divertida Jaja Ding Dong (a ridícula música que é a única que o povo da cidadezinha islandesa gosta) até Double Trouble, a notória canção que o duo vai apresentar no Eurovision. Mesmo a canção Húsavík, que é o grande momento de Sigrit na narrativa (personagem que, aliás, deveria ser a verdadeira protagonista, por ter um arco narrativo muito mais interessante e alinhado ao de participante de concurso musical), surge mais como um motivo para que ela perdoe Lars do que como uma demonstração do talento da personagem.

Por isso que, no fim das contas, apesar de conseguir capturar o que é a extravagância do Eurovision e, talvez , introduzir as pessoas a esse programa tão peculiar, o filme perde por ter que massagear o ego de Will Ferrell e focar em seu personagem odioso. Também não ajuda o fato de a produção provavelmente ter o rabo preso por ser financiada pela European Broadcast Union e pelo governo da Islândia. Vale mais a pena ver o Eurovision de verdade logo, que já tem drama e comédia suficientes nele mesmo.