“Numa época em que os filmes eram considerados apenas entretenimento descartável, com as impressões rotineiramente derretidas para obter a prataria, Kenji Mizoguchi perseguia fanaticamente a perfeição. Esteta, ele destinou seus filmes a entrar no reino onde a cerâmica fina e a poesia perduram” (trecho do texto The Story of the Last Chrysanthemum: A Cineaste’s Performance, de Dudley Andrew — tradução livre).
Em 1939, o cinema era radicalmente diferente. No mundo, ainda não se falava em cinema moderno, Cidadão Kane sequer existia e A Regra do Jogo era lançamento. No Japão, via-se forte influência dos dramas norte-americanos, assim como um crescimento do cinema nacionalista, como resposta do governo à segunda guerra sino-japonesa (1937-1945). Nesse contexto, alguns dos grandes cineastas da história buscavam sua voz, como Akira Kurosawa, Yasujirō Ozu e, claro, Kenji Mizoguchi.
Com conflitos e tensões por todo lugar, inclusive em sua vida privada, Mizoguchi optou por buscar um local de conforto: o teatro. Assim, em 1939, Crisântemos Tardios nos leva ao teatro kabuki (forma tradicional de teatro popular do Japão, com forte uso de maquiagens e da estilização da performance de modo geral) do fim do século XIX, em Tóquio.
No filme, Kikunosuke Onoue, filho adotivo de um ator lendário especializado em papéis femininos, descobre que sua reputação é fruto apenas do status de sua família, e que todos odeiam seu trabalho em segredo. Devastado, busca conforto em uma empregada da família, Otoku, com a qual se apaixona após ela ser a primeira que é honesta com ele. Assim, Kikunosuke fica determinado a fugir de casa e se desenvolver como ator de maneira independente, e Otoku segue seu plano.
Interessante notar como o teatro e o próprio cinema formam um todo completo em Crisântemos Tardios. Apesar de ocorrerem diversas performances, às quais Mizoguchi dedica grande atenção, em nenhum momento a obra se entrega ao teatro de maneira submissa. Ao mesmo tempo em que o diretor homenageia o kabuki, traz ao cenário uma complexidade própria do cinema, assim como se utiliza constantemente da câmera para fazer conexões entre os planos.
Acima de tudo, Mizoguchi une as duas artes para fazer um teatro dinâmico, em que o espaço é reinterpretado a cada cena, seja pelo desenvolvimento dos personagens ou pela própria câmera. Ângulos e locais que remetem à felicidade, em outros momentos demonstram nostalgia e melancolia.
Apesar de ser um melodrama, Crisântemos Tardios muitas vezes se utiliza desses atributos para gerar emoção em uma visão fria. O diretor não busca usar o cinema para adentrar nas almas dos personagens, como os melodramas normalmente fazem. Pelo contrário, o distanceamento faz parecer que há ali uma performance das pessoas envolvidas naquela história.
Porém, não vejo contradição. Afinal, a toda hora Kikunosuke busca humanidade perdida no seu vazio interior. E não é que o filme não tem emoção, mas essa é calculada e restrita a algumas cenas. Há belos momentos entre Kikunosuke e Otoku, e há também a frieza que comentei. É como se o protagonista estivesse sempre atuando em um papel vazio e depositando em Otoku sua pouca humanidade.
Otoku, por sua vez, apesar de fazer de tudo pelo homem, em clara situação de submissão, nunca é levada pelo diretor como naturalmente ocupante dessa posição. Tudo se movimenta no filme, e o seu papel é constantemente resignificado, assim como Kikunosuke, que transita entre a pena e o desprezo ao espectador.
Crisântemos Tardios é um dos dramas mais belos e melancólicos que já vi. É também um dos meus filmes favoritos, por essa visão tão única que Mizoguchi tem do cinema.