O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS!
Em meio aos grossos modos de rotular obras cinematográficas, especialmente para nós cinéfilos que crescemos assistindo à Rede Globo, surgiu a expressão “filme de Sessão da Tarde” para referir-se a filmes infanto-juvenis direcionados à família que geralmente passavam na tal sessão vespertina da emissora. Particularmente, gosto muito de usar também a expressão “filme de Supercine” para me referir a thrillers simples e diretos que flertam muitas vezes com o horror. Estou tratando dessa bobeirinha porque não há definição melhor para o novo filme do australiano Sean Byrne do que “filme de Supercine”.
Afinal, Animais Perigosos foca em uma premissa simples para deixar o espectador na ponta da cadeira. Uma surfista norte-americana solitária e melancólica é capturada por um entusiasta de tubarões que, em suas horas vagas, atua como assassino em série de jovens mulheres, filmando-as sendo devoradas por seus admirados predadores e catalogando esses vídeos como um acervo pessoal de fetichismo sádico. Porém, um elemento que deixa essa premissa mais curiosa é o verdadeiro significado do título; afinal, os “animais perigosos” não são necessariamente os peixões carnívoros, mas sim os nossos protagonistas. Sim, no plural, já que o filme parte do ponto de vista de ambos, mocinha e vilão, em diferentes momentos da narrativa, tornando-os dois lados distintos da mesma moeda.
Se Byrne apresenta o maníaco Bruce Tucker (Jai Courtney) como um misógino patético que, por ter sobrevivido a um ataque de tubarão, se enxerga como semelhante aos predadores e usa isso como pompa para a manipulação e dominação de suas vítimas, também apresenta Zephyr (Hassie Harrison) como uma loba solitária que, pensando não ter mais motivos para permanecer viva, logo se vê dominada pelo instinto de autopreservação diante da crueldade de Tucker. É como se o diretor criasse uma arena – no caso, o barco do vilão – e botasse dois predadores para se digladiarem como uma experiência que determinará a hierarquia natural desses predadores. Com essa finalidade, Byrne mantém seu apreço pela violência gráfica, tão escancarado em sua ótima estreia Entes Queridos (2009), nesse jogo de gato e rato brutal.
Porém, essa é uma premissa tão simples que, com pouca criatividade, pode acabar em uma fórmula que se repete inúmeras vezes, quase que da mesma maneira. E o cineasta definitivamente não estava com muita criatividade aqui. Mesmo com seus míseros 98 minutos de projeção, Animais Perigosos torna-se redundante muito rápido e acaba flertando com as sequências genéricas de qualquer franquia slasher em sua falta de inspiração. Tal problema poderia ser sanado se a metáfora animal fosse mais poderosa a partir da imagem. Por mais que tenha seus momentos instigantes na decupagem, o que mais registra é a forma como Byrne verbaliza suas intenções simbólicas nas falas pretensiosas do assassino, o que acaba culminando em aborrecimento.
O resultado é uma obra que poderia ser um ótimo “filme de Supercine” com mais criatividade e engenhosidade por parte de seu realizador. Porém, mesmo sem tê-las, ele ainda decide dar um passo maior do que a própria perna em uma metáfora curiosa que nunca diz exatamente a que veio. Pelo menos, ainda é divertido o suficiente para assistir com a galera em um finalzinho de sábado sem birita. Torço para que o próximo trabalho de Byrne não demore tanto e, caso o faça, ao menos alcance um nível mais recompensador.