O TEXTO A SEGUIR PODE CONTER SPOILERS!!!
Quando 2025 começou, eu jamais esperaria que uma das maiores surpresas do ano viria do retorno de Lindsay Lohan para a Disney. Afinal, muitos fatores indicavam, ao menos para mim, que esse revival de Sexta-Feira Muito Louca (Waters, 2003) seria mais um fracasso retumbante lançado pelo monopólio do camundongo orelhudo. A onda recente de revivals e versões em live-action de ícones hollywoodianos não tem sido das melhores e, neste caso, o filme original é apenas simpático, mas nada de mais; e a própria Disney vem decepcionando cada vez mais em todas as frentes de seu gigantesco monopólio. Por isso, tudo indicava que Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda seria somente mais um caça-níqueis automatizado do estúdio para faturar em cima da nostalgia de um público que adora ser enganado pela memória afetiva. E foi com extremo choque que percebi, ao fim dos créditos finais, como uma nova comédia familiar da Disney tinha me feito rir como poucas nos últimos anos e mais ainda: me emocionar profundamente (mas esse é um assunto à parte, que trarei mais ao final do texto por envolver experiências externas).
Eu não conheço nada do trabalho da diretora Nisha Ganatra, mas posso afirmar que sua condução de humor aqui, especialmente no que diz respeito a timing cômico e dinâmica de elenco, é muito superior à de Mark Waters no longa original. Afinal, aquele era um filme bem “quadradão” e, por vezes, parecia até uma sitcom à moda antiga de tão travado em sua zona de conforto. Nesse contexto, o “freaky” (“esquisito”) do título original se referia superficialmente à troca de corpos entre mãe e filha, tratada com pouquíssima imaginação durante toda a narrativa.
Aqui, temos a típica abordagem do “maior e melhor” que vemos em tantas outras sequências. São duas trocas: a filha rebelde (Julia Butters) com a mãe (Lohan) em vésperas de casamento e a neta adotiva megera (Sophia Hammons) com a avó apaziguadora (Jamie Lee Curtis). E sim, o filme despende todo um tempo de sua duração para contextualizar essa nova formação familiar, composta a partir de um acaso curioso, que rende uma situação de extremo conflito. As irmãs adotivas que não se suportam, os noivos apaixonados que querem se mudar para outro país e a avó que teme a solidão ao se distanciar de sua filha. E sim, as novas trocas de corpos parecem um tanto aleatórias logo de cara, mas é aí que o filme revela seu inteligente trunfo.
Há um “quê” de determinismo nessa nova troca, em que os eventos precisam acontecer de determinada maneira para que a resolução seja a melhor possível e todos se sintam confortáveis com suas vidas futuras. E isso parte de uma série de sequências caóticas entre as quatro mulheres em suas novas (ou nem tão novas) formas. Justamente pelo maior número de protagonistas trocadas, temos um tratamento muito mais caótico da narrativa, seja pelo roteiro de Jordan Weiss, seja pela própria direção de Ganatra e a edição de Eleanor Infante. O “freakier” (“mais esquisito”) do título original e o “mais louca ainda” do título adaptado fazem muito mais sentido aqui, até formalmente falando. Tudo parte de uma premissa arbitrária, que desafia não apenas a percepção das personagens principais mas também a do público. Impossível não passar por um momento de confusão sobre quem está no corpo de quem. Além disso, cenas um tanto aleatórias e meio desconexas (como as que envolvem a cartomante de Vanessa Bayer) adicionam um tempero ainda mais caótico para essa nova empreitada.
Empreitada esta que extrai o máximo de seu excepcional elenco. Hammons e Butters surpreendem ao precisarem encarnar versões joviais de suas parceiras mais velhas, Lohan tem a chance de repetir seu papel de adolescente revoltada encarnando uma “aborrescente” da Geração Z e… A essa altura, o que eu preciso dizer sobre Jamie Lee Curtis?! Talvez dando a máxima de que um Oscar por seu papel aqui seria muito mais merecido do que aquele que recebeu pela sua decepcionante participação em Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (Scheinert e Kwan, 2022). Sua composição é brilhante tanto como a racional Tess quanto como a fútil patricinha bitolada que toma sua forma por boa parte da projeção. E sua dinâmica com o personagem de Chad Michael Murray rende talvez as melhores piadas do filme. Por sinal, vale apontar como todo o humor que se baseia no conhecimento do filme anterior funciona para muito além da nostalgia e a fisicalidade é muito mais explorada do que na obra de Waters.
A direção feminina — assim como boa parte da equipe por trás das câmeras — também é importante por ser uma sequência que trata ainda mais sobre a experiência das mulheres de três gerações diferentes. Existe todo um subtexto dramático sobre a relação entre mães e filhas que serve como força motriz para inspirar a união das quatro. E ele é desenvolvido de forma até elegante dentro das inúmeras situações apresentadas. Uma pequena revelação envolvendo a inspiração para uma música, por exemplo, é de uma sensibilidade ímpar e até mesmo o clímax fazendo clara alusão à reta final de 2003 surge ressignificado nessa nova dinâmica, tanto dentro da narrativa do filme quanto em contextos externos.
E é aqui que eu vou falar sobre o choro de alegria que me pegou de surpresa durante os créditos divertidos do filme. Eu, como uma criança nascida no ano 2000, cresci encarando Lindsay Lohan como uma princesa da Disney no mundo real. A febre que a atriz causava desde sua estreia com o divertido Operação Cupido (Meyers, 1998), passando por várias comédias adolescentes nas quais surgia com uma beleza estonteante e particular, realmente contaminou muitas crianças da minha geração. E foi com extremo pesar que, nos mais de 10 anos seguintes, percebemos a vida de Lohan se tornando um reality show desesperador que parecia anunciar um fim ainda mais trágico… e não apenas para sua carreira. A princesa tinha caído de seu palácio de traumas e enfrentava uma realidade bem comum às suas colegas de profissão da época. De fato, foi um período terrível de exploração de jovens artistas.
Por isso, não pude deixar de me emocionar por estar revendo Lohan não apenas em um bom filme, mas também em sua terra natal das comédias familiares que tanto construíram sua carreira, agora renovada e em meio a uma indústria que, mesmo longe da perfeição, passou por uma limpa importante nos últimos anos. Nos erros de gravação mostrados durante os créditos, pude ver uma Lindsay belíssima, talentosa e, o mais importante, sorridente, uma Lindsay que tinha se desbotado e virado apenas uma memória depois de tantas fotos maldosas que popularam a internet nos últimos 15 anos. E eu também não pude evitar de relacionar a volta de Anna aos palcos, tocando com a Pink Slip em seu sonho adolescente, com o seu retorno ao próprio sonho de Lindsay em se tornar uma estrela, passadas todas as contradições que vinham nesse pacote. Então, eu preciso ser honesto aqui: talvez eu revisite Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda futuramente e o encare como mais um lançamento da Disney. Espero que não, mas sinceramente não sei. Porém, declaro que ele sempre vai ter um lugar especial, por ter dado a tiara perdida de volta à princesa que passou uma longa temporada em seu próprio vale das sombras.
Bem-vinda de volta, Lindsay!