Eu Posso Ouvir o Oceano é uma empreitada curiosa do Studio Ghibli: primeiro por, de forma inédita, trazer Tomomi Mochizuki à direção, no lugar dos já consolidados Hayao Miyazaki e Isao Takahata, junto com outros jovens artistas que lá trabalhavam. Segundo, por trazer uma trama e um visual mais realistas, naturalistas e adultos, visando não só se adaptar à linguagem televisiva (visto que este foi o primeiro filme do Studio feita diretamente à televisão), como se comunicar com um público diferente.

Aqui, acompanhamos Taku Morisaki (Nobuo Tobita), um estudante do ensino médio em Kochi, uma cidade costeira tranquila, onde ele desenvolve uma grande amizade com Yutaka Matsuno (Toshihiko Seki). Contudo, tudo muda com a chegada de Rikako Muto (Yoko Sakamoto), uma aluna transferida de Tóquio, que logo conquista os meninos por sua beleza e imponência, mas também por seu caráter misterioso e emocionalmente indisponível.

Ao mesmo tempo que me lembrou Memórias de Ontem (Takahata, 1991), por ter esse caráter (ou ao menos tentativa) de aprofundamento numa personagem feminina em período escolar; curiosamente também me remeteu a Amores Expressos de Wong Kar-Wai (1994) — o qual sequer havia sido lançado em 1993, ano de Eu Posso Ouvir o Oceano — porém sem metade do impacto de ambos.

O problema não é a simplicidade e o melodrama, é o modo desinteressante tais características são encenadas. Memórias de Ontem é tão singelo e aborda temas tão “minúsculos” e pessoais quanto este; todavia, dentro desse caráter fragmentado da narrativa havia uma substância muito sólida, baseada em sonhos quebrados, na relação da protagonista com o afeto de seus pares e tantos outros aspectos que dão àquela obra um peso emocional imenso — algo que abordei na minha crítica. Por outro lado, Eu Posso Ouvir o Oceano parece sair do mesmo ponto de partida sem nunca chegar a um resultado que se aproxime do filme de Takahata. Apesar de Tomomi Mochizuki conseguir atingir alguma beleza e alguma alma no terceiro ato, era tarde, afinal, não havia sido constituído o substrato narrativo para tanto no restante da obra.

A semelhança com Amores Expressos se dá muito por conta de Rikako, essa mulher misteriosa que vai e vem, cujas intenções reais são impossíveis de saber e cujos passos são impossíveis de prever; além da conexão desses acontecimentos com o caráter líquido do amor, algo tratado de forma genial no longa de 1994. Mas, diferente de Kar-Wai, nessa temática não reside qualquer ideia em Eu Posso Ouvir o Oceano; não há uma discussão, mas também não há nada que inicie alguma relação emocional com a narrativa. Não chega a ficar tedioso pela duração reduzida: é só esquecível mesmo.

Também por isso o terceiro ato fica tão sem sentido: acompanhamos esse amor líquido, porém ele nunca convence, e quando chega a hora de emocionar com o final, o espectador nem teve a oportunidade de experienciar o amor dos personagens. Parece mais um amontoado de acontecimentos desconexos sem qualquer ideia para os tornar uma unidade (essa ideia, vale dizer, não precisa ser uma narrativa tradicional; mas na obra de Mochizuki não há nem uma coesão de concepção). Se ele queria fazer um filme singelo e simples sobre um amor (algo totalmente válido), por que os relacionamentos são tão sem alma? Se o diretor desejava fazer uma narrativa sobre memórias da época de adolescente, por que esse tema é tão escanteado? Se a pretensão era mostrar as bobagens de um amor adolescente, por que a narrativa troca a paixão forte — característica dessa idade — por uma mera relação de Rikako mandando e Taku obedecendo? Desse modo, parece mais uma imitação dos aspectos clássicos do melodrama do que uma obra nova em si.

Apesar disso, a animação e a trilha sonora são muito bonitas. Gostei muito de como os personagens são desenhados com um traço limpo e os cenários, em oposição, têm um aspecto de pintura. Isso dá à obra uma individualidade muito interessante, não sendo totalmente devoto ao aspecto mais onírico de Takahata nem ao detalhismo de Miyazaki. Acompanhado disso, sem a trilha sonora a pouca emoção da narrativa se tornaria totalmente nula.

Em se tratando de Ghibli (e de cinema em geral, na verdade), um filme ser “sobre nada” não é um demérito; acho até que o vazio é um dos sentimentos mais interessantes a serem explorados pela arte. Só que ser “sobre nada” e ser sem substância são coisas diferentes. Há obras que com tão pouco conseguem comunicar muito; há obras que com muito, conseguem comunicar muito pouco. Eu Posso Ouvir o Oceano é um caso diferente: com pouco, não consegue comunicar absolutamente nada.