Nos anos 1970, após engravidar do namorado enquanto estava sendo obrigada pelo seu pai a casar com outro homem, a jovem Elisa (interpretada por Fernanda Marques) é enviada ao Hospital Colônia de Barbacena como forma de punição, onde ela irá passar pelos horrores do local em que ocorreu o conhecido “holocausto brasileiro”.

Ninguém Sai Vivo Daqui propõe algumas coisas interessantes: a sensação de sufoco da fotografia em preto e branco, a inclusão de uma história fictícia em um contexto real, a transição entre o drama e o terror e a maravilhosa atuação de Fernanda Marques. Contudo, acho que o impacto fica mais restrito à ideia do que ao desenvolvimento.

Longas sobre contextos reais tão dolorosos quanto esse sempre serão complicados. Mostrar em câmera um sofrimento coletivo desse tamanho normalmente torna a representação incompleta, impotente ou apelativa. Obras com Noite e Neblina (Resnais, 1956) são exceções à regra, tanto em respeito às vítimas quanto em poder de dar ao espectador a dimensão do que está sendo contado.

Felizmente, Ninguém Sai Vivo Daqui não é apelativo, e definitivamente não é um novo O Menino do Pijama Listrado (Herman, 2008). Porém, peca pelo outro lado: é um filme que nunca ultrapassa a barreira da superficialidade em sua abordagem. Não cobro do filme um ensaio teórico do assunto, afinal, para isso já se tem o livro Holocausto Brasileiro (Arbex, 2013), o qual inspirou a obra aqui tratada. Meu problema está mais no campo da decupagem mesmo.

Isso porque, apesar de mostrar torturas, mortes e outras crueldades, a produção nunca chega a impactar de verdade. Nunca se dá a dimensão do que é o hospital, o que lá ocorre tem pouquíssima representação para além de alguns diálogos, e o terror que toma o filme aos poucos é fraco, e se restringe à agonia causada pela própria situação, sem se preocupar em articular o previsto no roteiro ao restante dos aspectos da cena e da narrativa como um todo.

Em geral, é uma obra completamente impotente. Isso não quer dizer que não vejo valor em nada, mas apenas que acho o longa covarde quando olho para ele como um todo. Tem pouca preocupação em ir além de seu tema, e menos ainda em causar o incômodo que o tema pedia. Quando, no início, anunciou-se que “As personagens deste filme são fictícias. Os fatos aconteceram realmente”, seguido por Elisa desorientada sendo mandada para aquele inferno, não imaginei que o restante seria progressivamente mais morno a cada cena. Isso faz com que o clímax, o qual pretendia ser tenso, perder imensamente seu impacto.

Fico bastante triste como Ninguém Sai Vivo Daqui perde a oportunidade de explorar um dos ocorridos mais tristes e brutais de nossa história, por ter medo de incomodar. Medo de desagradar uma parte mais sensível do público, medo de tratar de temas complexos, medo de fazer um terror para além de uma meia dúzia de cenas angustiantes, medo de retratar a realidade, mas também medo de explorar a ficção. Enfim, medo de ser algo para além de um drama estéril que só se sustenta por tratar de um tema relevante.