André Luiz de Oliveira, aos 21 anos, presenteou o Brasil com Meteorango Kid, Herói Intergaláctico (1969), uma das obras mais instigantes sobre juventude e resistência que pude ver até então, censurada por anos pela Ditadura. O diretor assume uma fixação ansiosa e quase obsessiva em mostrar tudo ao mesmo tempo; da maneira mais consciente possível. Lula Bom Cabelo (Antônio Luiz Martins) aparece como Jesus Cristo crucificado em sofrimento ao som de guitarras distorcidas logo no começo do filme, em uma cena que acontece de trás pra frente e já elabora um pouco o tom de desespero da figura do jovem perdido e revoltado de classe média que Lula exprime.
“Curti adoidado”, frase que marca toda a geração da Tropicália e que sobrepõe um close-up do rosto de Lula logo depois de ele, fantasiado de Batman, assassinar seus pais porque não quer ir pra faculdade e sim ser ator. Isso ocorre pouco depois de uma sequência onde Lula é um ator famoso fazendo propaganda de shampoo e sendo acariciado por duas mulheres, em uma espécie de sonho molhado do protagonista, que odeia as regras e só quer aproveitar. Essas sequências envolvendo ele como um grande ator são bem engraçadas, mesmo com a total não linearidade dos acontecimentos e a dúvida sobre “ser real ou não”.
A representação cultural da época é um dos artifícios que André melhor trabalha para desenvolver e satirizar conceitos em Meteorango Kid. O diretor abusa de referências diretas a músicos como Jimi Hendrix em uma cena de performance genial, Caetano e Gil (ícones da Tropicália que haviam sido exilados pelo AI-5 da ditadura em 1968), são parte essencial do filme na trilha sonora do começo ao fim, prestando homenagem a esses artistas marcantes da geração sessentista. Também faz uma espécie de homenagem satírica a personagens como o já mencionado Batman, Robin, o Tarzan e ao próprio Bandido da Luz Vermelha (1968, Rogério Sganzerla), referenciando esses ícones em sequências super experimentais que podem ter (ou não) relação direta com o que se passa com a existência do protagonista.
O desfecho tem um tom até meio poético sobre a jornada mais humana e do choque de amadurecimento que a sociedade conservadora impunha, mas a esperança está ali. Lula definitivamente curtiu adoidado, esculhambou pra caramba e resistiu contra tudo aquilo da maneira mais ingênua e honesta possível: não ligando para nada.
“Que será de mim
De minha vida
Que importa ?”
É um filme muito importante e marcante pela relevância temática (igual a todos do movimento), especialmente em tempos sombrios de ascensão da extrema direita na juventude contemporânea. Mas é bom mesmo pela maneira que pensou encenar todas as experimentações do filme, a consciência de cultura pop e um trabalho de som espetacular (seja pela trilha sonora, seja pelas inserções que não abusam de sons desconfortáveis e agressivos para revoltar-se, como Matou a Família e Foi ao Cinema (1969, Júlio Bressane), tudo em prol de construir esse arquétipo do “herói” de uma juventude censurada e oprimida pela Ditadura Militar.
Essa articulação faz da experiência uma das mais divertidas e ao mesmo tempo transgressoras do Cinema Marginal, exprimindo de maneira densa um personagem que, de certa forma, representa a identidade do cidadão brasileiro na ditadura como um todo: perdido, com raiva, sem amparo e com um regime censurando qualquer respiro e expressão de identidade na sociedade.
No fim das contas, a magia do Cinema Marginal é bem sobre essa bagunça exagerada e autoral, gritando pra ser ouvido e ansiando ser mal falado. Mas nesse caso, mesmo que o final deixe em aberto, acho que toda a desilusão e incerteza refletem, de certa forma, esperança para o futuro do Lula e de toda a juventude que pensava diferente. A rebeldia aqui é um ato de puro heroísmo e a consciência do diretor quanto a isso é muito visível.
Esses são alguns motivos da minha experiência com Meteorango Kid, Herói Intergaláctico ter sido tão proveitosa. É uma obra com tantos acontecimentos, nuances e inventividades que é impossível de esgotar significados, ideias, relações, etc. Recomendo “de olhos fechados”: é um dos melhores para começar o Cinema de Invenção, junto do já citado Bandido da Luz Vermelha (1968) e também do espetacular A Meia Noite Levarei Sua Alma (1964, José Mojica Marins). Que grande experiência!
“Aliás… esse filme é
dedicado a meu cabelo”