Após a partida de Dayane, a vida de todos ao seu redor muda drasticamente. Sua mãe, Marluce (Luciana Souza), tenta esconder a dor profunda que sente, enquanto Mariana (Pipa), sua irmã mais nova, enfrenta dificuldades na escola. Antônio (David Santos), o noivo, se vê perdido e mergulha em uma busca obsessiva por respostas, tentando lidar com o vazio que ficou.

Quando recebi o convite para a cabine de imprensa de Quando Eu Me Encontrar, fiquei empolgado. A promessa de uma narrativa nuclear que acompanha as experiências dos familiares que ficam após o sumiço de Dayane era interessante por si só, porém, o outro ponto prometido consistia na influência da música brasileira e de sua presença ao longo da obra. O título do longa, aliás, é uma referência a “Preciso Me Encontrar“, composta e cantada por Candeia e eternizada na voz de Cartola, uma das mais belas músicas não só do Brasil como do mundo; canção que também inicia o filme.

Contudo, Quando Eu Me Encontrar acabou deixando um gosto um pouco amargo. Definitivamente, os curtos 78 minutos não foram suficientes para apresentar algo mais do que uma representação rasa do luto (lembrando que luto não precisa significar morte) e curtos momentos musicais que pouco se conectam com a narrativa. As maravilhosas atuações de Pipa, de David Santos e principalmente de Luciana Souza não foram capazes de gerar uma conexão significativa, justamente porque não há tempo para desenvolver algo mais do que a ideia de que pessoas diferentes lidam com sentimentos de formas diferentes.

Há bons momentos, alguns ótimos, inclusive, até porque o ponto de partida da trama é fascinante. De fato, as diretoras Amanda Pontes e Michelline Helena apresentam uma grande sensibilidade ao lidar com os temas representados, em especial quando tratam as frustrações da irmã Mariana, que vê uma de suas maiores referências ir embora dando poucas satisfações, em contraposição à mãe Marluce, preenchida com culpa e tendo que seguir em frente e cuidar da menina que ficou. O noivo Antônio parece um pouco deslocado, mas é aquele que mais demonstra um lado tão próprio e tão reprimido do luto: a raiva.

Não há motivação para a saída de Dayane, e essa é a maior fonte de angústia do longa, principalmente para Marluce. Algum alento pode ser encontrado em dos trechos de Preciso Me Encontrar:

“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver”

Infelizmente, não vejo isso tão refletido na encenação, na medida em que não noto um interesse tão grande em aprofundar no âmago de quem fica após a vontade de desaparecer relatada por Candeia. Ao lado das poucas cenas que falam sobre a desorientação da irmã, a fúria do noivo e a culpa da mãe, há uma diversidade de momentos que evidenciam como a narrativa está mais para um conceito do que para uma narrativa propriamente dita. Em vez de dinamismo e desenvolvimento, o longa fica estático, e repete suas ideias sobre os protagonistas conjuntamente a narrativas paralelas desconexas. Ao menos, a duração não deixa tal aspecto se tornar cansativo.

Sobre luto, considero A Metade de Nós, de Flávio Botelho, também lançado recentemente, muito mais consistente, uma vez que vai além de apenas retratar uma situação, para desenvolver continuamente seus personagens. No momento em que Quando Eu Me Encontrar parece começar a realizar isso, ele chega ao fim e, apesar de não ser um filme ruim, frustra ao não atingir seu potencial nem como drama intimista, nem como fruto da MPB que tanto parece valorizar.